Salto 15 de acrílico

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Eu sou um cafajeste tarado, escravo dos meus desejos,  mas encolhido e reprimido, sem controle ou liberdade. Um outro eu está no comando. Ele é honesto, moderado, moralista, humanista. Às vezes ele me deixa respirar um pouco, mas logo assume de volta o controle.

Ontem à noite eu fui à um prostíbulo. Ou um clube, como for. Puteiro também serve.

Vi putas de luxo indefectíveis. Vi capas de revistas dançando nuas a meros centímetros do meu corpo. Vi plataformas acrílicas com saltos de 15cm, adornos nos corpos perfeitos e  mulheres sem nome. Fitei olhares lascivos e sorri na ilusão do desejo. Senti um torpor inédito, uma inquietude maquiada de Tesão, calças apertadas e aquele desejo de romper as amarras que sustentam o meu exílio.

Era a minha primeira vez.

Então o outro eu, cheio de princípios, tomou as rédeas. Ele sentiu desejo, atração. Ficou fascinado com tanta beleza. Mas sente muito pela vida dura que aquelas mulheres levam. Ele quis ir embora e não voltar mais, porque sabe que elas são corvos sedentos pela carniça bancária de presas fáceis ludibriadas com os fio-dentais e os silicones. Ele sabe que não é escravo dos seus desejos. E sabe que não basta um corpo perfeito para derrubá-lo do seu trono dourado.

Epílogo

Se teve um começo, então terá um fim. Um ditame tão forte contrasta com infinitos frágeis e tênues, que não passam de uma abstração. O amor é frágil e abstrato, mas não é tênue. E também não é infinito.

Como um vestido bem recortado e de um vermelho que salta aos olhos, ele desbota e encolhe. Marca as curvas de duas vidas plenas, e serve justo e preciso. Mas um casal que se conforma com a ressaca de uma paixão enlouquecida que não pede licença e nem dá explicações adora se vestir de vermelho e brincar de amor.

A minha história é longa, rende até livro. Tem capítulos bem definidos, exceto este último, que carece de final. Quase oito anos de namoro, e agora me resta um punhado de boas lembranças e uma sensação engraçada que aperta a garganta e congela o estômago. Eu a amo, mas não como antes. Eu a protejo, mas ela não deseja um herói ou um pai. E o conforto de uma relação tão sólida toma o espaço da volúpia e da lascívia. Como dizia a mestra Rita Lee, amor sem sexo é amizade, mas a mim parece fraternidade entre irmãos.
O final de um relacionamento nem sempre é evidente. É turvo quando a esperança de dias melhores permeia as cores na cinzenta massa dos que pensam, e é ácido pros que sentem medo. Reconhecer que chegou a hora de despir-se por completo e procurar novos panos exige habilidades que sequer nossas mães possuem. É difícil abrir mão de algo que nos veste tão bem.
Ela estava estranha, impaciente, e sem libido. Eu, apenas confuso. Os longos silêncios lembravam aquele momento antes da tempestade, com céu escuro e ruído do vento. Rajadas de raiva culminavam em olhares de inquisição, e deixavam o gosto amargo do arrependimento na boca. Então choveu torrencialmente, incontrolavelmente, e as mágoas enterradas bem no fundo foram jogadas pro alto. Choveu sapos que não passaram pela garganta de quem deixa o orgulho segurar as rédeas e se senta nos bancos do egoísmo. E então passou.
Hora de arrumar a bagunça, mas cadê a vontade? Parece que ainda chove.
O teto branco agora parece cinza, e a cama é fria e distante. Acho que preciso de mais tinta e novos cobertores.