Pain Killer

Não passa de estímulo e reação. Latente, persistente, latejante. Interromper o estímulo irá sanar a reação que incomoda, mas apenas depois da dor já ter destruído algumas fibras. E não basta apenas acreditar que vai passar. Tem que ter um analgésico.

Alguns analgésicos são simples: cancelam o estímulo e a viagem dos sinais. Outros são mais elaborados: criam uma confusão global que distrai. Há, entretanto, os que dissimulam. São os melhores. Os estímulos são mascarados para algo indolor. É criado um torpor mental que confunde e conforta. O que antes arrancava lágrimas, agora faz cócegas.

Sobra um resíduo tolerável. Mas por não sumir por completo, a dor nos impede de esquecer. Surge então o medo de perder a cura e voltar para a destruição. É o começo do vício.

Ela tem usado um desses.

Eu não. Meu analgésico é a minha dor.

Já entendi.

Ela puxou o fio da tomada e desligou o samba. Sabotou os seus meios de comunicação . Trocou o disco, queimou as fotos e as cartas para que todos vissem o que sobrou, guardou os porta-retratos e pintou as paredes dos defeitos dele. Coloriu sua vida com a sua liberdade, tomou alguns analgésicos e avançou.

Ele?

Bom, ele ainda a namora.

Let me introduce myself.

Ontem eu fui dois. Caminhei nas duas mãos da estrada. E, fato indubitável, consenti em ser menos eu, mais ela. Essa matemática foi dos reais aos imaginários. Complexo. E eu não sabia o que queria de mim. Dela? Bom, eu tinha alguns palpites. Certamente furados, mas é um teorema improvável.O nosso gráfico não existe mais: sou abcissa desordenada. E eu aponto pro infinito.

Uma relação a dois não comuta, mas eu comuto comigo mesmo. Eu sei do que gosto e sei o que quero. Ou não, porque eu a quero, mas não a quero. Eu preciso descobrir do que eu sou feito operando sozinho, indo e vindo, sem descontinuidades e singularidades e, principalmente, escrevendo a caneta. Lápis e borracha é pra quem erra. Eu não erro. Eu divirjo.

Romper as nossas amarras psicológicas custa caro, mas o produto é nobre. Não foge à regra de três, afinal um serrote é um bom reserva de maçarico. Eu não tenho. Nenhum. Vou deixar os elos da corrente enferrujarem. O óx(ác)ido ferroso é vermelho e colore bem as suas unhas.

Me lembra de te ver sorrindo, mas não hoje. Deixa pra amanhã.