Despertador.

Desperta a dor. Alucina. Desespera. Desperpetua a sina. Assassina. Desperta a mente. Não volte a dormir. Cresça.

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Um ano.

isabella

Aquele anjinho chegou chorando, nos fazendo sorrir. A cadência do choro fez caminho até a sala de espera, e seu progenitor soube que era ela quem chamava. Logo a mãe a receberia em seu leito, e elas conversariam como fizeram nos últimos meses, de pertinho. Nos nossos dilemas e confrontos diários, fomos encontrados pela expectativa, e logo nada mais acontecia no mundo. A Isabella estava lá, esperando por nós.

É incrível como o mundo é veloz. Completou seus giros rotineiros e fez a sua parte como sempre. Enquanto ganhava espaço no tempo, viu uma criaturinha crescer. A alegria dos primeiros sorrisos, as poses, os primeiros sons, a doces manias foram nos mostrando quem estava alí, pedindo cuidado, oferecendo amor. Acompanhar o crescimento de uma criança tão especial é um presente impagável.

Hoje ela completou um ano. E também completou o corredor inteiro engatinhando. Sua primeira vez. Nossa primeira vez. Quem pode explicar o que sentiu essa pequenina ao conseguir superar esse grande desafio? Este anjinho ainda não tem asas, mas nós sabemos que irá longe. Estamos todos atentos, anciosos, felizes. Seja bem vinda Isabella. Parabéns.

Duelo.

Quem vence? A razão que diz que não, ou o sentimento que jura que sim?

Resultado: empate técnico. Os juízes não puderam escolher por falta de experiência. Nunca arbitraram tal embate. O tempo acabou antes da hora e ninguém foi à lona. A plateia não aplaudiu, simplesmente assistiu, e ninguém sequer sussurrou quem merecia o prêmio. Ah, o prêmio: um cheque assinado pela felicidade, em branco. Preencha quem vencer, mas quem precisa de um papel como este? O banco da esquina não aceita.

Vida a Dois.

Uma amiga mandou este texto. Achei ótimo. Obrigado, Natália.

PARA QUE serve UMA VIDA A DOIS?

(Drauzio Varela fala)

“Uma relação tem que servir para tornar a vida dos dois mais fácil”. Vou dar continuidade a esta afirmação porque o assunto é bom, e merece ser desenvolvido. Algumas pessoas mantém relações para se sentirem integradas na sociedade, para provarem a si mesmas que são capazes de ser amadas, para evitar a solidão,por dinheiro ou por preguiça. Todos fadados à frustração. Uma armadilha. Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado. Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo, enquanto você prepara uma omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio, sem que nenhum dos dois se incomode com isso. Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada uma pessoa bonita a seu modo. Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro, quando o cobertor cair. Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro no médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois. A vida e curta, amem muito!!

Paciência.

A falta de inspiração me faz cuspir umas ideias contra esse blog. Não sei o que quero agora, mas é domingo. Tudo é diferente nos domingos, porque as questões existenciais latejam na mente enquanto o tédio pinta tudo de cinza. A vontade de ver o fim do dia é grande, mas é um vício letal. Amanhã nós desejaremos o fim da segunda, e então o fim da semana, dos problemas, dos limites. E paradoxalmente, no final desejaremos viver um pouco mais, curtir um pouco mais. Essa pressa toda nos faz esquecer de explorar quem somos, o que faremos, como nos saímos ontem. Mas no domingo nós não temos fuga. A batalha contra nossos monstros interiores não é leal, e quase todo mundo se deixa distrair pela programação da tv. É mais fácil assim. Mas quem não tem pra onde fugir enfrenta as dúvidas e angústias da consciência que namora o domingo. Não é ilícito imaginar que não existam domingos, e sim projeções mentais nas noites que ligam os sábados às segundas. Não faz sentido, mas quem disse que ficar pensando na vida enquanto o dia acaba faz sentido?

S E X O

Pra quê? Bom mesmo é deixar a dentadura ao lado da cama e dormir ouvindo o ronco da véia.

Eu me pergunto todo dia até quando vou ser tarado. Eu sou controlado, mas não sou santo. Agora, em crise, não penso em sexo, mas sei que quando as coisas ficarem boas outra vez, serei um tarado outra vez. Até quando?

Vou casar. Será sorte ou azar da minha esposa ter um tarado em casa?

Alguém aí acha que eu preciso aproveitar a fase ruim e tentar me manter distante da luxúria e da lascívia?

Metamorfose

Eu sinto as marteladas da consciência no meu ego, esculpindo um novo caráter. O ciúmes queima meus nervos, e então a gélida saudade termina o processo. Aquele velho orgulho defasado está sendo remoldado. Até mesmo o metal mais duro pode derreter e adquirir uma nova forma. E quando a autoestima briga contra a força esmagadora da rejeição, seus músculos se tornam mais rígidos. A expressão da derrota mostra apenas uma transição, e quem a vê estampada naquela velha face segura, cheia de força, não acredita que um novo herói está sendo treinado. Como se não houvesse mais fé, as lágrimas escorrem e encontram umaboca que foi tão desejada pela menina que segue seu novo caminho. Pois essa boca agora aprende a silenciar mais, e suas palavras serão melhores. Não há previsão de cura quando os joelhos doem em súplica, mas à primeira luz dos dias ensolarados as dores adquirem nova alcunha: crescimento. Não há mudança sem adaptação. Não há reparação sem sofrimento. E o sofrimento é o polimento da essência. Eu estou melhor. Eu serei melhor.