Encontros.

No alto, nudez. No que sobra, mistério. Antes que essa ordem seja invertida, e reste mistério nas faces perante a nudez dos corpos, os olhares encontram contornos sobre contornos de pele. A roupa que não combina faz um pacto com a fantasia de quem olha. No fundo, o desejo. Na superfície, a dúvida. Ele pergunta se é enchimento. Ela suspeita da calça.
O primeiro contato sexual geralmente é visual. As roupas marcam. Eles percebem as curvas que mexem enquanto elas caminham. Será um violão ou um violino? Elas olham discretamente o tórax, o abdômen, o quadril, e é rápido como num curta-metragem. Mas elas desejam longa. O confronto dos olhares os leva para outro cenário, nus, perfeitos. Nas suas mentes não há mais nada além de prazer.
As roupas seguem balançando ao vento e aos passos, valorizando o que neles há de mais sensual. Será que ele vai olhar pra trás? Será que ela vai sorrir no próximo encontro? Quanto tempo dura o suspense?

Anúncios

Primaveras 10.

Eu já posso sentir as flores inundando o ar com seus perfumes e suas cores. O sol vai esquentar a terra, a chuva não trará inverno nem tormenta, o vento se despirá da sua força e se mostrará brisa. O inverno acabou.
Passou o meu último frio. Pena que a nova primavera não pudera chegar em tempo. Ficou perto, breve, no alcance de um braço. Um abraço talvez, mas não mais do que amizade. O frio congelou.
Foram todas lindas. Tiveram suas cores e suas dores. Mostraram seus perfumes, seus pássaros e seus cantos, seus casais enamorados no parque. Deixaram lembranças mil, milhão, amorilhão – não tem como explicar esse tamanho.
Dia 22 de Setembro já foi dia de comemorações, mas é tolice. Despedida é a sua razão. O inverno morreu, cedeu seu trono à estação das flores, soprou sua última tempestade.
Floresça.
Feliz dia 22.

Do the talk…

A conversa é metade do prazer. As provocações verbais sugerem sem mostrar, mas deixam nuas as intenções. Geralmente são apimentadas com alguma objetividade, mas deixam no ar o desejo por uma resposta. Evidenciam a inteligência – o maior afrodisíaco – quando respondem abrigando uma nova provocação. Transformam o ambiente num cenário onde ocorrem mil fantasias estimuladas por umas poucas palavras. A temperatura do corpo aumenta, as pupilas dilatam, surge então um frio na espinha. As posturas mudam, os sorrisos iluminam as faces, as suprarrenais descarregam mais adrenalina. As palavras fluem, viajam no espaço e encontram abrigo nos sexos de quem conversa. Porque é de lá que elas vieram, e é pra onde querem ir. Não apressam nem tardam. Tampouco exigem. Não conhecem nada além da lascívia, da luxúria, do prazer.
Em cada palavra que surgiu do desejo e foi silenciada há um orgasmo que não fez vibrar nem gritar nem perder o fôlego. O sexo é uma das atividades mais complexas e misteriosas que o homem inventou pra encontrar a felicidade, e não deve ser mudo, nem tímido, nem só. Permita-se. Converse.

Par de Seios.

Então os olhares não se cruzaram mais, e nem os assuntos. Pra que, se era apenas pelo prazer? Não me surpreendo que as mulheres pensem que são apenas pares de seios depois que a primeira vez se transformou em última.
Eu não vejo apenas seios bonitos onde há um olhar lascivo. Não falo apenas dos seios bonitos quando a conversa não se afoga em timidez e vaidade. E não elogio apenas os seios bonitos quando da dona daquele colo surgem belezas sutis e cativantes.

Mas see não lhes resta nada além do busto, não me condenem. E também não voltem.

Poupe me.

Domingo, 3:35 da manhã. O que sobrou da noite? Um pouco da embriagues do vinho e da cerveja, e um bocado de pensamentos. Sim, eu ainda penso. Eu existo. Eu vivo.
Uma nova festa, uma velha conclusão. Eu ainda sou o mesmo. E sou gentil:
– com licença querida – quase não ouço a minha voz.
– sim pode passar – diz a menina bêbada cedendo o lugar, sorrindo, mas cobrando seu pedágio. A mão dela segura a minha cintura, e depois um aperto na nádega. Que lugar é esse? Desejo mesmo que isso seja corriqueiro, exceto com as meninas super bêbadas. Algumas pessoas encontram alternativas divertidas nessas festas estranhas. Assédio? Prometo não denunciar às autoridades, mas preciso contar pra alguém.
As bailarinas brilhantes no alto do salão transformam a penumbra num show de vermelhos e amarelos que traçam os contornos dos rostos. Quem dirá quem é bonito com essa confusão de luzes? Quem dirá que eu tenho um rosto?
Uma menina chamada Cris – Cristiana, Cristiane, Crisântemo ou Cristo – não sorri e nem conversa, mas dança e olha. Não me agrada, não me completa.
A festa era de amigos, com música e dança, mas a densidade demográfica local supera de longe a dos ônibus em horário de pico. Pra mim chega.
O taxista conversa sobre a chuva. Eu culpo, com bom humor, o senado. Eles que plantaram a chuva pra desviar as verbas destinadas à reparação dos danos. Sim senhor, é fato. Chega de álcool, chega de festa. Quero paz e arroz.

Nowadays

O táxi me deixou perto da entrada. Percorri o resto do caminho pantanoso de chuva e escuridão a pé. Os prédios antigos da instituição abrigavam um pouco da nostalgia noturna, mas era uma noite nova. Gente nova. Os rapazes da entrada queriam ingressos que já haviam esgotado. As moças desfilavam suas roupas escolhidas a dedo com expectativa e orgulho.
A menina passa e olha nos meus olhos, mas disfarça com ar blasé. A outra sorri pra si mesma, e busca a mão da amiga que parece saber o caminho. As luzes dançam suas cores nos rostos bem desenhados, pintados com lápis e batom, alinhados com base, adornados de brincos que os cabelos escovados escondem quando o rosto vira. O pescoço fino, a alça da blusa e o colar brilhante que desce até o colo esculpido, a roupa colada. Serão todas iguais, interpretando a mesma personagem?
O beijo do casal ao lado é frenético, ardente, mas hipócrita. A dança do rapaz é tímida, mas o olhar fixo nos seios fartos não é. A moça finge não ligar e dança seus passos que seduzem. Um circo está montado em cada ambiente da festa. Algumas palhaçadas masculinas, alguns malabarismos femininos, e o público aplaude de pé. Os homens sabem tudo de marketing, pois vão mostrar pras mulheres que tem a solução das suas carências, e as farão acreditar que precisam deles em poucos minutos de conversa. As mulheres encenam se importar enquanto o álcool não se acomoda na cadeira de comandante.
Eu danço enquanto a cerveja desce pra minha perna. Se ela fosse pro lugar certo, eu já estaria relaxado, alegre, amortecido. Reencontro amigos, revejo conceitos, retrocedo ao que eu pensava sobre as pessoas antes de sair de casa. Pego mais um copo. O sétimo ou o oitavo? Lá fora tem brisa, música, dança. Tem a menina que me quer, mas com um cigarro na boca. Vamos nessa? Não, vá sozinha. Algumas coisas não mudam. Meu padrão está noutro planeta, onde não tem cigarro e pouca bebida. Não me agrado com mulheres bêbadas, nem com mulheres alegres demais. Nem com as desesperadas. Ficarei sozinho hoje.
Escolho uma posição afastada. De camarote, vejo tudo. Apoio as costas num poste de luz úmido e sujo. Olho pra cima. Sinto a chuva cair no meu rosto. Vejo as danças, ouço a música, mas não me envolvo. Foi a piada do rapaz popular ou todos dão risada quando bebem e fumam? Ainda dá pra ver grupos que dançam, amigos que conversam, amigas que cochicham aos gritos umas nos ouvidos das outras. Estamos todos surdos? Eu sinto a música vibrar no meu corpo, explodir no meu ouvido, mas não a compreendo. Também não entendo o que sinto. Mas o álcool já fez seu caminho até a minha cabeça e agora tudo está lento. Preciso do banheiro, como esperado, e abro caminho até o ambiente interno da festa. Tem muita gente na mesma situação, mas eu os julgo todos acéfalos. Exagerado sim, mas justo. Querem todos voltar pra perto das suas presas. A caça agora está liberada.
Uma amiga cede o controle pro álcool, e eu a levo pra ser atendida. A ambulância está aqui do lado. Melhor assim, porque posso analisar e refletir sobre tudo isso com mais silêncio, sentado no banco da unidade de atendimento, enquanto a minha confidente amiga revela que quer beijar alguém legal nessa noite. Logo ela vomita e esquece de tudo. Saio e danço um pouco com aquela que deve ser a única mulher apreciável da noite. Será que estou sendo exigente demais? Ela dança muito bem, mas agora cambaleia um pouco. Muito álcool. Como sempre.
Em alguns momentos as horas passam e a festa está no final. Eu dancei e bebi, mas estive consciente. Aliás, estive consciente demais. Os casais trocam fluidos, promessas, toques e prazeres. Não se conhecem, tampouco se admiram. Alguns nem ligam pro público que assiste ávido por estímulo. O pancadão faz as meninas de respeito, filhas de pais rigorosos, dançarem até o chão. Aqueles joelhos nunca mais serão os mesmos. As línguas não exitam nas bocas e nos pescoços, e as mãos procuram o sexo em cada porção de pele tocada. Quem não está nos braços de outro alguém procura o seu par com o desespero de quem vê o tempo passar e as chances irem embora. Beijos. É tudo o que se busca. Não há mais a dança.
Os grupos dominuiram em quantidade e qualidade. Sobraram as meninas desprivilegiadas de beleza e os meninos que não aprenderam o segredo. Há também aquelas que simplesmente dançam com as amigas, e essas são as mais interessantes. Não vieram buscar adrenalina e saliva. Queriam apenas dançar e beber.
O DJ anuncia o fim da festa. Ouço aquelas frases o tempo todo, desde aquela noite de sábado há dois meses, no carro.
“O que é bom dura pouco, e um dia precisa terminar. Vamos embora. Boa noite, obrigado.”
A saída é sempre uma confusão. Decido sumir sozinho. Passo pela saída, onde as pessoas tentam recuperar a sobriedade que foi embora mais cedo. Alguns esperam carona, outros combinam quem irá com quem neste ou naquele taxi.
Piso forte na poça d´agua da calçada. Repito a brincadeira mais uma vez, e então outra. Molhou, mas logo seca. Não chove mais, e há uma brisa agradável. Eu estou quente, mas não saberia sentir frio alcoolizado. Canto uma música sobre o tempo e a vida. Erro a letra e desafino, mas estou sozinho numa avenida de Porto Alegre. Desejo gritar.
“Temos nosso próprio tempo. Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.”
O céu já não é cinza escuro. Há um pouco de azul, e uma claridade ensaiando o nascer do dia na direção que sigo. Passo pelo breu florestal do parque, ouço o vento nas folhas e o canto dos pássaros. Ouço a trovoada do motor do primeiro ônibus com seus matinais trabalhadores. O semáforo brilha seu rubror que não comove o automóvel. Ele não para. Paro eu. Estou a cada instante mais próximo de casa, e vejo agora um caminho que já fiz várias vezes, mas nunca tão cedo. Ou tão tarde. O caminho dessa noite era novo, imprevisível, mas agora eu penso como se conhecesse toda aquela festa. São todas iguais, mas é a compania que determina as emoções de cada momento.
Chego em casa. Às seis da manhã não ouço o barulho da vizinhança, mas os pássaros continuam sua sinfonia. Serão os mesmos? Eles me seguiram? Pois parecem os mesmos. É o mesmo som. O canto desses ou daqueles pássaros é sempre o mesmo pros meus ouvidos. Assim são as mulheres dessa ou daquela festa, o assunto desse ou daquele taxista, a bala de menta dessa ou daquela idosa. Parece que eu já conheço esse mundo.
Deito sozinho sem cerimônia na cama pra duas pessoas. Os cobertores me envolvem, o sono me abraça, o mundo já não gira mais. As batidas fortes e graves da música não pulsam mais na minha cabeça. O cheiro é o das minhas coisas, do meu perfume, da minha presença.
Enfim, os sonhos.

Espaço.

Eu admito: tenho um coração mole. Daqueles que anseiam por carinho, por dar carinho. Me comovo com amores, não com tristezas.

Me dei conta que essa tecla que só o dedão usa é um estorvo. Quando a teclamos, o que aparece? Nada. Eu to farto disso tudo que separa e afasta. Me desejaram boa tarde, boa noite, boa janta e bom descanso. Melhor seria “boatarde, boanoite, boajanta e bomdescanso”, assim mesmo, juntinho, com ar de tecla estragada ou erro de digitação. Porque as tardes, noites, jantas e descansos serão melhores quando houver coisa nenhuma separando a gente.