Ficha criminal.

Sinceramente, o passado das pessoas não deveria importar. Numa situação ideal, ele seria apenas uma história pra passar o tempo nas horas vagas.

Mas há quem afirme que o ser humano não muda. Alguns detalhes se mascaram, outros são lentamente modificados, mas de um modo geral, o caráter e a índole das pessoas permanecem inalterados com o tempo.

Inada não concordo com essa opinião e ainda não acredito no oposto. Infelizmente, é no passado que eu baseio a confiança pro futuro, com espaço restrito para as promessas e para a as boas intenções.

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Mentiras e o direito de escolha.

Eu passei por uma saia justa recentemente. Errei e sofri com as consequências, mas fui influenciado a dissimular para me esquivar delas. Eu sofri com isso. Sofro com cada mentira que conto, com cada erro que cometo. Mas o meu maior alívio foi saber que quem estava me julgando assistira de camarote a minha mentira. Não importa qual fosse o veredicto, os juízes do meu deslize teriam o direito de escolha sobre a minha absolvição ou condenação, posto que sabiam de tudo.

Assim deve ser quando passamos um amigo pra trás. Ele precisa escolher se continuará ou não confinando em quem o traiu. Mais importante ainda é a traição de um cônjuge, que está amarrado em uma relação que não pode ser obscura ou mentirosa.

Se for uma relação vazia,  então pouco importa revelar ou não a mentira. Caso contrário, é covardia e imaturidade persistir no erro.

Traições.

O que mais me perturba nas traições é a privação da escolha. Quem foi traído não pode escolher o rumo que quer seguir. Uma variável importantíssima da sua vida mudou, mas nada foi revelado, e portanto tudo continuará como antes.

Eu desejo me casar com a mulher incrível por quem me apaixonei. A vida inteira parece pouco tempo com ela, e mesmo os defeitos são um estímulo para permancer ao seu lado. Mas numa situação hipotética ela me trai, e, incapaz de assumir seu erro, mantém tudo como está. A cada dia, uma nova mentira. A cada mentira, uma nova mágoa pré-datada.

Se ela me contasse, eu poderia explorar as possibilidades. Se valer a pena, a relação poderia se esquivar das consequências da traição e tudo continuaria igual. Ou ela poderia ser reconfigurada. Namorar a distância não é fácil, então nós teríamos uma relação aberta. Amizade, carinho, sexo. Se não fosse possível, seríamos amigos. Sem mentiras, sem cobranças, sem pressões. Certamente, o futuro de nós dois e da relação seria muito melhor se ela contasse.

Dar o direito de escolha é fundamental para uma relação. Eu não espero nada menos do que este tipo de lealdade.

Demagogia.

Eu fiz o discurso da minha formatura. Eu posso colocá-lo aqui, mas é só um discurso bobo. Enquanto eu falava, lá no palco, as pessoas, atentas, refletiam sobre o que eu dizia. Aplaudiam quando achavam que cabia, e silenciavam na  maior parte do tempo. Alguns choravam, outros sorriam. E as minhas idéias foram transmitidas lentamente, frase após frase, até o ponto final.

A aceitação do que eu disse é um mistério que não precisa ser solucionado. Mas ao menos metade da responsabilidade sobre as consequências do que foi dito me pertence.

Eu fico impressionado com a oratória e a eloquência de alguns ícones da hitória do mundo. Adolf Ritler era um mestre da demagogia. Ele envolveu um país inteiro na sua luta pela superioridade da raça ariana. Mais de 60 milhões de seres humanos morreram naquela grande hecatombe.

Todas as palavras, ditas a uma pessoa ou a um grande grupo, são fortes e importantes. As suas consequências podem ser magníficas ou desastrozas, e  podem atingir proporções imensuráveis.

Mentira.

Imaginem que por um dia o mundo deixe de mentir. O político revelaria seus esquemas de corrupção. As suas palavras delatariam todos os seus colegas. O tráfico de drogas e armas seria exposto como um sapado na vitrine do shopping. O vendedor cobraria o preço justo, o comprador assumiria que não tem dinheiro e que se tratava de um golpe. O ditador daquele país que ninguém conhece seria deposto quando o povo soubesse das suas ambições. A construtora diria que o prédio é novo, mas é frágil, pois foi feito com material de segunda linha. O marido infiel revelaria seu caso e a sua esposa teria a chance de decidir entre ficar com ele ou viver a sua vida como merece.

Aquele amigo chato saberia que é chato, o chefe idiota demitiria todos seus funcionários, a namorada acima do peso iria ao psicólogo ao ouvir do namorado que é, de fato, gorda. O psicólogo diria que é verdade, mas isso não a faz inferior a ninguém.  No final da consulta ele reclamaria que está cansado de gente doente.

A mentira é um lubrificante social, necessário em todos os momentos da nossa vida. Se não mentirmos quando crianças, não teremos amigos e seremos castigados pelos pais. Na adolescência, teremos problemas com a escola, com os pais e novamente com os amigos. Teremos problemas com os conjuges a toda hora. A mentira é nossa amiga. Nós precisamos dela.

Mas não seria perfeito acabar com toda discórdia que a mentira causa? Dar a chance de escolha a quem é enganado? Despir-nos das máscaras que escondem a nossa pútrefa verdade e, finalmente, começarmos a evoluir um pouco?

Eros.

Enquanto o mundo embala uma música romântica, ele caça. Se esconde da razão e fareja o desejo. Persegue os anseios mais profundos e se esquiva do auto-controle. Nada o detem enquanto as palavras doces tocam o ego e os olhares picantes enrubescem as faces. As velas crepitam na penumbra profunda quando o beijo acontece.

Eu estou entre os seus dentes, lutando para não ser engolido, desejando jamais ser cuspido.

Dia da Mulher

Foi dia da mulher e eu dei parabéns, beijos, votos de felicidade e dias melhores. Mas tenho percebido a negatividade desta data quando escuto mulheres afirmando que “é só mais um dia para a sociedade patriarcal exercer a sua dominação.”

Eu concordo com a idéia: as mulheres foram assassinadas há cem anos e por isso surgiu o dia. É um dia de luto, certo?
CONTUDO, há um dia das mães, mas as mães são mães todos dias, e merecem homenagens todos os dias. Alguém aqui deixa de parabenizar a sua mãe pensando que há mães em situações ruins?
Eu parabenizo as mulheres no Dia da Mulher, mas as amo e venero todos os dias.
Não vejo nada de errado em dar flores, chocolates, parabéns e votos de felicidade às mulheres pensando que há ainda injustiças e discriminações. Contra o que há de mal na sociedade e atinge as mulheres eu opino e argumento, reprimo e faço a minha reprovação ser ouvida. Eu luto contra a discriminação de gênero todos os dias. Silenciar no dia 8 de março não ajuda as mulheres em aspecto algum. Agir como se a luta das mulheres fosse prejudicada pela nomeção de uma data a elas é acreditar que a sociedade nos deu pão e vinho para calar as nossas reclamações.
As mulheres sofreram e a sociedade inteira deve a elas uma postura mais madura e equilibrada. Isso será conquistado todos os dias. Homenageá-las a cada mês de março reforça a memória da nossa dívida.
Eu não deixo de sorrir e beijar e parabenizar uma mulher no seu dia.

Por um lado, é bonito lembrar que as mulheres são maravilhas do mundo e devem ser amadas incondicionalmente. Por outro lado, há o incentivo à discriminação.
Mulheres, aceitem os parabéns com alegria e entendam que essa é uma atitude favorável à causa.
Durante 364 dias do ano as mulheres esquecem como foi complicado conquistar o espaço que já tem e como será complicado continuar com a luta. Vivem as suas vidas preocupadas com ofensas insignificantes, comparações imaginárias sem importância, desejos, sonhos, problemas familiares e sociais, cores de roupas, batons, programas de tv, saudades de quem tá longe, mas raramente impoem a sua vontade de mudança. O dia da mulher se tornou símbolo de luta, mas por que não lutar todos dias? Eu incentivo a luta, e eu aplaudo sempre que vejo uma mulher mostrando o seu valor. Mas estes são raros momentos do meu dia-a-dia. São raros momentos do dia-a-dia de todos nós.
Parabenizar um humano por ser mulher no dia 8 de março é incentivar a luta, é reconhecer que há motivos para mudanças.
Parabéns a todas as lutadoras. Ano que vem eu volto a parabenizá-las, com a esperança de presenciar melhoras substanciais.

Na minha maior oposição à existência desta data mora a oposição às demais datas comemorativas. Se a sociedade não fosse consumista, não haveria tantas datas. Tudo que impulsiona as vendas é bem vindo, não é?
Eu estava num vôo da Azul ontem e a companhia deu de presente a todas mulheres do vôo uma passagem aérea, com óbvias restrições de horário, destino e data. Mas as mulheres vão aproveitar as passagens com acompanhantes, sejam eles  filhos, maridos, namorados, amantes, amigos ou amigas, e estes pagarão o preço – e por que não um preço inflacionado? Não passa de mais uma astuta jogada de marketing.