A monja Coen Sensei.

No dia 29 de abril de 2010 eu fui à palestra da monja Coen Sensei e fiz algumas anotações. Nem próximas de relatarem a palestra, elas apenas ressaltam alguns pontos de importante reflexão. A monja fala muito bem, com naturalidade e calma, mostrando-se uma ótima oradora. Foi jornalista quando jovem, profissão que lhe possibilitou contato com diferentes culturas e níveis econômicos e sociais. Ela fala sobre a favela do Rio, a Rainha da Inglaterra, o Vaticando. “É impossível saber como é a favela sem ter estado lá. As diferentes fragrâncias do corpo humano e seu ambiente, e seus alimentos e animais no estado mais simples de sobrevivência são únicas e inesquecíveis.”
 
“Monja Coen Sensei (30/06/1947), nascida Cláudia Dias Baptista de Souza, é uma monja zen budista brasileira e missionária oficial da tradição Soto Shu com sede no Japão. Monja Coen também é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista criada em 2001 com sede em Pacaembu, São Paulo. Seu pai era filho de portugueses e sua mae oriunda de familia paulista quatrocentona(Dias Baptista),de grandes proprietarios de terra.”
 
Teve uma adolescência rebelde, segundo contam, mas tornou-se budista ainda cedo. A impressão que eu tenho é que o embalo dos anos dourados do rock´n roll a levou às diferentes experiências dos jovens ricos daquela época, e em algum momento conheceu o budismo. Em Los Angeles esteve em contato direto com um convento budista, e então no Japão e finalmente no Brasil.
 
A palestra começou com um exercício de respiração e relaxamento. A monja nos pediu para sentarmos com a coluna reta, um pouco a frente na cadeira, e respirarmos profundamente. A mão esquerda, pousada sobre o ventre, recebe a mão direita. As pontas dos polegares se unem formando uma elipse com as mãos. Era para repararmos na diferença de temperatura do ar que entra e que sai das nossas narinas. Era para perceber os sons, a temperatura do ambiente, as fragrâncias, sem julgamento de valores, sem achar bom ou ruim. Era apenas para perceber e se conectar com o ambiente. Então, a respiração deveria ser consciente, pensando em cada instante da respiração.
Este exercício é muito importante e deve ser praticado sempre. A respiração deve ser reparada sempre. Quando estamos com raiva, como respiramos? E quando estamos tristes, ou decepcionados? E quando estamos ansiosos?
 
A palestra seguiu como uma conversa agradável. Daqui pra frente eu vou apenas transcrever as minhas anotações, com algumas notas adicionais.
 
– Onde estamos, está a nossa vida, e onde está a nossa vida, está o universo. Tudo está ligado.
 
– Nós somos responsáveis pelo que nossos antepassados fizeram. Eles não entendiam o que era certo e o que era errado. Nós devemos corrigir os seus erros sem julgá-los.
 
– História do monge que recebia refudiagos da guerra do Vietnã. Vou relatar essa história:
“O monge zen-budista trabalhava com auxílio aos refugiados da guerra do Vietnã. Quem esteve em contato com o horror da guerra voltava com as emoções em pedaços, sem paz e sem direção. Também não havia remédios e comida. Na Malásia, o monge fazia o seu trabalho e aguardava dois navios, contendo 600 famílias vietnamitas, quando o governo decidiu interromper o auxílio. Aquelas famílias não teriam mais a comida e os medicamentos necessários, e morreriam antes de encontrar um novo porto. O monge ficou transtornado. Mesmo sendo um monge, ele sentiu raiva e frustração, e levantou bandeiras em praça pública, para que o povo se rebelasse com a medida do governo e ajudasse os vietnamitas. Então em uma noite, no seu apartamento, o monge recebeu a visita de um policial. Ele trazia as passagens de volta à sua terra, para que o monge deixasse o país e não mais perturbasse a ordem. Ele ficou em pedaços. Depois de passar horas caminhando e respirando, procurando alguma paz, o monge se acalmou. Lembrou então de um amigo que poderia atrasar em 6h a partida do navio, que estava marcada para às 6h daquela manhã. Conseguiu, até o meio dia, alimentos e remédios para colocar dentro dos navios. Aquelas famílias vietnamitas não teriam todo o auxílio que o monge promoveria, mas sobreviveriam até o próximo porto.”
Esta história nos mostra que nós ficamos frustrados demais quando não conseguimos o que desejamos. Até mesmo os monges ficam. Mas com calma, podemos amenizar os danos, e nos contentar com o que pudermos fazer.
 
– As pessoas não sabem ficar em silêncio. Devemos aprender a ouvir, a silenciar, e a buscar o silêncio. Pode ser angustiante passar dias sem conversar, mas é preciso aprender a gostar do silêncio. Eles nos direciona para nós mesmos.
 
– Regra simples e essencial: “é proibido resmungar.”
 
– O momento da raiva e da tristeza duram apenas alguns segundos. O que resta é culpa da memória. São os pensamentos sobre aquilo que nos feriu que mantém a raiva e a tristeza presentes.
 
– Não aprendemos a lidar com ciumes, inveja, rancor, raiva. Escutamos desde cedo que é feio ter inveja e sentir raiva. A verdade é que não é feio, e nós podemos sentir tudo isso. O problema não é sentir essas emoções, e sim o que fazemos com elas.
 
– Corrupção: Cor(ação) rupto – coração partido, sem a capacidade de entender o que é certo. Os corruptos perderam o senso coletivo, e são sós, vítimas do seu próprio individualismo.
 
– Nós somos egoístas até quando doamos. Aquele presente escolhido com carinho deve ser amado por quem o recebe, ou ficaremos ofendidos. Não precisamos saber o que foi feito com ele, porque já não nos pertence. Temos que nos desapegar no exato instante em que o entregamos.
 
– Nós estamos TODOS interligados. O “eu” é feito de tudo aquilo que é “não eu”. Os leitores podem entender isso pegando no tecido de algodão da sua roupa. O que é visto? O algodão branco e macio? Não. É visto a nuvem. Porque sem a nuvem, não há a planta ou a água. É visto o sol. É visto o trabalhador que plantou e colheu, e aquele que confeccionou o pano. Há o lanche que a mãe do trabalhador preparou para a sua tarde, e então o trigo que foi plantado para preparar o pão. Há o vento que veio do leste e trouxe o tempo bom, e os pássaros que levaram a semente da árvore para o solo fértil. Há a interação de tudo no mundo, porque tudo está interligado. Nós precisamos respeitar todos, tudo, quaisquer que sejam as suas origens ou posições. Aquele objeto moderno, plástico, foi feito por um trabalhador que é escravo na China. Aquela é a vida dele, e o objeto faz parte da sua. Vale uns trocados aqui e lá, mas não precisa ser tratado como se não tivesse valor.
 
– O apego limita. Eu me imagino extremamente apegado ao controle remoto da tv. De tanto apego, eu o colo na minha mão direita. Assim ele será só meu e eu serei feliz. Mas terei uma mão a menos para usar. Cada objeto de apego me torna mais preso, mais limitado.
 
– Se o coração e a mente não mudarem, nenhuma reforma política, social e econômica trará paz à humanidade. Nós devemos manifestar a paz, e não a violência. Podemos sentir raiva e aprender com ela. É a raiva que nos impele contra injustiças. Mas devemos sempre procurar a paz.
 
Eu chamaria a palestra de “A cultura da paz.”
 
Durante as palavras doces e bem escolhidas da monja, começou a chover. Eu estava sentado na parte descoberta do teatro, exposto ao tempo, assim como um bocado de pessoas. A chuva era leve e agradável, mas a histeria das pessoas interrompeu a palestra. Elas começaram a fazer barulho para encontrar abrigo, enquanto os que estavam sentados sob a lona ficavam incomodados. Eles olhavam pra trás e pediam silêncio aos demais. A monja parou e perguntou se havia algum problema. Serena o tempo todo, aguardou o movimento cessar e brincou: “a chuva é muito boa também, vocês deviam experimentar. Mas não se molhem demais.” Eu fiquei irritado, é óbvio, mas a chuva me acalmou. Em poucos minutos não havia mais chuva. A minha roupa não molhou, o papel onde eu escrevia não ficou estragado, e ninguém precisava fazer barulho com medo da chuva. Somente sendo monge pra entender e aceitar as pessoas como elas são.
 
Houve perguntas no final. Algumas interessantes. Eu tinha uma, que comparava o budismo à filosofia dos Na´vi, habitantes do planeta Pandora, do filme Avatar. Aconselho fortemente esse filme. Ele mostra como nós somos atrasados, além de ser uma ótima diversão.