Reset.

Ontem eu dormi sem fechar os olhos. Foi logo depois de um impacto forte na nuca. Não sei bem o que houve, mas eu caí de costas. Meus amigos dizem que eu fiquei deitado por um tempo antes de ser ajudado. Quando levantei, perguntaram meu nome e eu disse sorrindo “é Cláudia, agora vamos voltar pro jogo.” Eu não lembro. Esqueci também de como foi o resto do jogo. Do início eu lembro um pouco.

Defendi, corri, driblei e fiz gol, mas eu não estava lá. Um amigo muito cuidadoso percebeu algo diferente e insistiu que eu devia sentar e passar água fria na cabeça. Foi quando eu tive náusea, tontura e muita dor. E o pior de tudo foi a confusão mental.

Eu pensei em ligar para Emanuele e contar o que houve, e perguntar do seu dia. Pensei em entrar no fórum e verificar se a Petrobras havia divulgado os resultados, e fiquei preocupado com o paper que estava escrevendo e que precisava de uns retoques. O problema é que Emanuele e eu terminamos há mais de mês e não nos falamos mais, e a Petrobras já divulgou o resultado do concurso. Aquele paper já foi sumetido.

Eu voltei a viver um momento do meu passado , como se o que eu vivi depois tivesse sido apagado. E eu tava acreditando naquela realidade. Foi chocante quando o sonho começou a terminar, conforme a água escorria pelo meu pescoço. Eu senti uma tristeza profunda pelo do fim do namoro, tal qual eu senti logo que o fim foi consumado. E então eu me senti orgulhoso e feliz pela aprovação no concurso, e aliviado por já ter finalizado um artigo científico. Lembrei em um instante de muitas coisas que aconteceram neste último mês. Senti em um instante um bocado das emoções que experimentei nos dias que passaram e que, após o impacto, estavam suspensas.

Os efeitos passaram todos em umas 5 ou 6 horas. O que sobrou foi uma dor de cabeça de 100 enxaquecas

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Atitude.

A minha vida tem sido uma sucessão de quases. Sem entrar em muitos detalhes, eu poderia ter sido escolhido em uma seleção de emprego, mas não fui. Eu estou em 42° na classificação de um ótimo concurso, mas até agora apenas 41 foram chamados. A minha classificação no exame quase me deu as primeiras bolsas de mestrado. Eu tive uma relação quase perfeita, que quase deu certo. Eu quase consegui o telefone daquela menina bonita, porque ela está quase comprometida.

Eu não me orgulho de nada disso. Preciso de mais atitude. A vida grita por mais entrega em todos aspectos, porque o quase é aquele mergulho na água rasa, onde os pés ainda podem tocar o solo – ninguém tem medo de se afogar quando basta ficar de pé pra voltar a respirar. Agora eu busco águas mais profundas.

Deriva.

A rede na minha sala ainda balança menos que eu. E embora eu tente compensar o movimento etílico do meu mundo impulsionando a rede pro outro lado, o efeito é sempre o mesmo: tempestade marítima na minha canoa furada. O violão no colo e a voz rouca procuram um A7# e uma velha melodia: “quando a gente tenta, de toda maneira, dele se guardar: sentimento ilhado, louco amordaçado, volta a incomodar.” Lindo, não? Tentei chorar, mas acabei dormindo.

“Que a minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor, e a outra também.”

Ensouidís.

80’s que pareciam 90’s ou 70’s. A festa que anunciava homo foi hetero, sem a pureza dos eletrônicos experimentais. E as experiências foram homo-hetero-supimpas. Porque supimpa é termo dos 80’s, mas dizem que o canal mesmo é dançar até o chão. E quem não tinha passo ensaiado, dançou (dancei) como se ninguém olhasse. Girls just wanna have fun, but I can’t stop loving you. No final de tudo, sobrou o volante nas minhas mãos, a estrada turva e alcoolizada (porque eu não bebo, mas ela sim) e a lua quase cheia cantando zeca baleiro: ando tão à flor da pele, que qualquer beijo de novela me faz chorar.

Eu já escrevi assim, entorpecido, após algumas festas, e nunca soube ao certo se estava escrevendo bem. Mas é justamente do que se trata o post: viver sem julgar, sem pensar, sem reduzir os fatos nem minimizar as consequências, sem me preocupar com a platéia e sem pedir aplausos. Eu faço por amor. Outrora único, agora livre, mas sempre por amor.

DIA DA FOTOGRAFIA

Ano passado eu escrevi sobre fotografia:

Clique.

sábado, setembro 5, 2009

Abra a mente, a capa, o diafragma. Focalize. Deixe passar. É passado. Tão logo o espelho levanta, o caminho limpa. Nada impede, nada bloqueia, nada perturba. A luz passa, contorna, abraça. Antes de chegar no fundo do poço, desvia. As lentes do preconceito divergem aquilo que o carinho convergiu. E as do amor não encaixam mais. Nada é igual depois da tempestade, lente obscura, sentença vaidosa. Parece distante, mas veja por outro ângulo: na teleobjetiva desse inverno cabem apenas alguns graus. Frio. Que tal trocar por uma grande angular? Se a exposição for menor, vai sobrar tempo pra nós?  Meu tremido nervoso vai borrar teu filme? O sorriso ficará amerelo? O momento crucial da fotografia não avisa quando chega. Esteja a postos para não perder o clique. E tome cuidado com o photoshop da memória. Ele troca matizes, redefine contornos, esconde detalhes.

Hoje é o dia, outra vez. Fotografe, mesmo que a câmara escura esteja na mente. E lembre-se: a luz é o principal para uma boa fotografia. Ilumine-se.

Introspecção

Tenho andado pelo campus e vejo detalhes que não reparava há a tempos. Tem um cartaz meio apagado numa parede, convidando para festa à fantasia que eu fui no ano passado, no dia 18 de setembro. Quase um ano passou e ainda tem pedaços da propaganda. Eu lembro da festa, eu lembro de como eu me sentia. Tem os bancos onde eu discutia física com amigo matemático. Ele está indo a Portugal fazer o doutorado. Tem o final da calçada que dá acesso ao estacionamento. Eu estive lá apenas uma vez, na tarde única quando encontrei Emanuele no campus. Tem a grama onde, num final de tarde de verão, eu deitei as costas, e do meu lado estava Andréia, amiga ímpar por quem até hoje tenho carinho. Tinha o Silvio e sua namorada, e as nossas discussões imprevisíveis sobre temas inusitados. Começou a chover de leve naquela tarde e lá nós ficamos por uns minutos, recebendo a água do céu. A chuva tem muitas histórias pra contar, porque ela surge nas núvens, atravessa um caminho longo em queda livre, vê o mundo de um ângulo novo, antes de voltar a fertilizar a Terra. E ela foi mar, riacho, lagoa ou poça d’água antes de evaporar  e terminar seu ciclo. É poético, não? Tem aqueles caminhos que eu fiz durante anos. Quando estava atento percebia que todos dias o cenário era o mesmo, mas a peça era diferente, com roteiro e personagens renovados. Tem os pŕedios cheios que sempre foram vazios porque eu nunca soube o que se fazia lá. Tem os diretórios acadêmicos e suas festas e loucuras, e o diretório central com suas promessas e desculpas. Tem as salas dos professores com seus móveis inventariados e suas equações na parede. Tem o quadro negro manchado de giz, e o pó espalhado que entra nos pulmões quando o professor apaga a matéria. Mas que absurdo, a matéria nunca some, apenas se transforma, como bem disse o químico Lavoisier. Um químico no sangue, uma química nos braços, uma noite inesquecível. Um físico no espelho, uma física por descobrir, uma noite solitária. Muito estudo pintou esse campus com as cores da responsabilidade, e o resultado é a aprovação – provocação do caos – com face de provação, mas com sabor de vitória.

Tenho boas memórias daqui e parece que em breve terei que me ausentar por muito tempo. É bom revisitar alguns momentos únicos pra não esquecer mais do que passou. Mas o passado é um lugar bom pra visitar e não pra viver. Por isso eu apenas mantenho as memórias vivas, alimentando-as com um pouco de introspecção.

Aquecimento Global.

Eu saí cedo de casa e logo coloquei os fones de ouvido. Tão cedo entrei no ônibus, abri um livro e perdi o caminho. O ônibus passou algumas páginas de concreto e asfalto e logo a universidade surgiu. Eu me pergunto se ela passou o tempo todo lá, ou desapareceu quando saí e reapareceu quando cheguei.

O caminho entre a parada e a sala de aula sempre é uma surpresa. Eu trilho os mesmos passos há uma mão cheia de anos, mas sempre vejo novidades.

Vi o casal que chegou mais cedo, abraçado, com olhares doces e palavras sussurradas. Vi os cachorros e suas feridas brincando. Vi o vendedor de balas à preços de aeroporto com a face deprimida. Vi a joaninha vermelha na pedra da grama (um coleóptero feliz?) e alguns pássaros brincando entre uma e outra árvore. O céu era azul e as árvores estavam verdes, mas o amarelo do sol matinal deixou todas cores mais vivas e receptivas. No fone de ouvido o Dave cantava “If you never flew why would you, cut the wings off a butterfly? Fly.” Por que você cortaria as asas de uma borboleta se você nunca voou? Voe.

O frio enrubesce as faces e contrai os músculos. Parece que todos andam tensos no inverno. É impossível não analisar o mundo nessas manhãs geladas. O meu mundo. A física me aguarda na sala de aula, nos livros, na ponta do lápis e nas conversas de corredor. Os amigos tem novidades pra contar, as amigas tem olhares enigmáticos, os professores sempre tem algo pra ensinar. As festas fazem meu sono mais raro e meu sorriso mais constante, as partidas de futebol me deixam suado e as idas à serra me trazem a paz da família.

O ar frio entra pelas minhas narinas e deixa meu nariz vermelho, mas sai notoriamente mais quente. Eu respiro meu mundo: o inspiro frio, mas sempre o aqueço antes de devolver.