O incêndio

Não é que ele fosse morrer. Havia aquela urgência de encontrar a resposta e a saída, mas nada ali sinalizava um fim trágico. Naquele momento tudo parecia uma grande comédia, exceto pela dor, daquelas que fazem judeus rezarem a Alá.
Era apenas mais um incêndio e era apenas mais um salvamento. A vida do bombeiro não muda quando uma casa pega fogo. Ele ajusta rapidamente o uniforme e pega suas luvas. O caminhão encontra a rua antes mesmo que o capacete encontre uma cabeça. A sirene chora e dramatiza a cena como em um final de novela das oito. O fogo é anunciado pela fumaça e a fumaça é anunciada pelo cheiro, que às vezes teima em ficar no nariz. Tudo ganha um gosto de queimado durante semanas. É então seguido o protocolo: o
chefe de brigada ordena, a mangueira ganha vida e a água ganha altura. O fogo chia e reclama, mas raramente se entrega.
Naquela segunda-feira, o Sgto. Linguini ouviu o Tenente chamar os soldados aos seus postos e gritar um endereço. Duas pessoas em um casa em chamas. Pensou que era apenas mais um incêndio, mas o Monteiro inesperadamente disse que ele não
precisava ir. Todos os colegas da brigada olhavam fixamente para ele.

Às vezes a gente demora para assimilar uma informação. Acontece apenas quando é do tipo que vai mudar o seu dia e entender na hora não melhoraria as coisas.
A frase ecoou: Rua dos Lilases, 111.
Linguini e sua esposa se mudaram para aquela casa antiga de madeiras nobres na véspera do casamento, há 2 anos. Foi construída pela antiga família Galló, famosa por não empregar tijolos nos seus projetos, apenas ipês e maçarandubas. Era incrível como ainda parecia nova e robusta, mesmo depois de um século. Agora ela queimava. Isso se aquilo tudo não fosse uma grande brincadeira da brigada. Já tivera seu batismo de fogo e já recebera seu trote, então não poderia ser outra brincadeira.

Havia algo de errado naquele anúncio, tinha que haver. Sua casa não deveria queimar. Tinha detetores de fumaça e um sistema antichamas em todos os cômodos. E quem estaria lá para causar o incêndio? Sua esposa trabalhava, a faxineira iria apenas na quinta, o gás fechava automaticamente a qualquer vazamento e toda a parte elétrica era nova.
Foi quando sentiu o inconfundível cheiro de madeira e verniz queimando. Bom, ainda poderia ser um engano. Poderia ser a casa do Alberto. Que os deuses o perdoem, mas tudo o que desejava é que fosse a casa do Alberto.
O caminhão logo alcançou a calçada onde ele havia pintado em vermelho um garrafal “NÃO ESTACIONE”. Linguini se deu conta que estava suando e que o peito estava apertado. O ar resistia aos seus pulmões e o rosto escondido pela máscara tinha mais pesares que a vigília do corpo de Sua Santidade. Os lábios suplicavam em silêncio que alguém lhe dissesse que não era de verdade. Ele nunca ficara tão preocupado e nunca se sentira tão nervoso, nem mesmo quando saíra com sua esposa pela primeira vez.
Então ele entendeu. Duas pessoas na sua casa, que queimava. Um arrepio surgiu na nuca e percorreu toda a espinha. Bastou um rápido trote para ultrapassar os soldados da mangueira e atravessar o pátio. Nem olhou para o quintal e seus leprechauns acenando lá de baixo, lembrancas de casamento de sua sogra. Que queimassem junto com a casa, porque nada mais eram do que lembrancas da sua sogra no casamento.
A porta de entrada era uma mistura de ipê roxo e jacarandá, com entalhes de arabescos e flores. Cederia facilmente ao machado. Pela primeira vez ele detestou não poder carregar as chaves de casa nas missões. É o comando. Aquela porta trabalhada com o capricho e
o esmero de tempos saudosos já sentia o calor das chamas insaciáveis. Agora ela seria violentamente estuprada pelo machado.
Havia chamas em toda a casa, mas se concentravam mais no andar de cima, onde eles tinham passado aquela tinta antibactérias amarela no banheiro. Quem ouviu primeiro foi o Monteiro. Os tossidos e os gritos de socorro eram quase inaudíveis lá da cozinha. Os soldados que carregavam a mangueira o seguiram em marcha e o homem do esguicho esfriou a abertura. Outra equipe trabalhava na escada, que deixou de ser um convite ao aconchego para se transformar em um portal do inferno. E o Sgto. Linguini entrou na cozinha pintada de laranja, com a mesa de peroba e as cadeiras do banquete de Luiz XIV. Viu o lustre caído no chão e pequenas chamas devorando armários e tábuas, no piso e no teto. A tinta se descolava em bolhas que lembravam o caramelo fervente pouco
antes de acomodar o pudim. Estava escuro por causa da fumaça, mas a janela da cozinha ainda
mostrava que lá fora o dia era alegre. Era possível olhar diretamente para o sol através do filtro de gases e
fuligem. Estava tudo muito quente, e alguns objetos mais leves poderiam se incendiar em uma combustão súbita a qualquer momento e em qualquer lugar.
O Alberto estava agachado e encolhido ao lado do fogão, onde a água do sistema antichamas caia
mais forte. Todo mundo pensaria que ele entrou lá para ajudar quando o incêndio começou, não fosse a vergonha escondida apenas pela tolha azul e creme e a assinatura “Sgto. Linguini” bordada à mão. E em meio
a tossidos e gritos, com uma careta de dor e desespero e culpa e medo, ele apontou para cima. Para a escada. Para a dona da casa.
Foi na escada que o Linguini se queimou. Quando subiu cego e sufocado, o corrimão despencou e o derrubou. A perna esquerda ficou presa e cozinhou rapidamente, mesmo que o esguicho de água tenha agredido o calor e apagado o fogo. Mas a perna também estava quebrada. Foi quando teve certeza que assim não poderia salvar sua esposa e achou que fosse chorar.
Quando o livraram do escombro encharcado, Linguini continuou subindo, claudicando. Demorou alguns segundos e algumas horas, porque ainda não sabia o que encontraria. O que poderia pensar? Ela estaria viva ou morta? Nua ou vestida? Ocorreu-lhe por um instante que seus colegas não poderiam ver aquele precioso corpo despido, mas se sentiu estúpido pelo pensamento fútil. Logo imaginou o Alberto sobre ela e quis saber desde quando tinham um caso. A bondosa esposa do Alberto já estaria a par da nova fofoca do bairro? Então lembrou que não tinha tirado o cretino da cozinha e não soube ao certo se desejou que o Monteiro o levasse para fora ou o deixasse queimar. E sentiu medo como nunca imaginara sentir. Sua amada estava em algum lugar do banheiro ou do quarto, e todos os cômodos superiores estariam enfumaçados e quentes como um forno à
lenha assando uma tradicional pizza marguerita. Então pensou em levá-la comer na Don Corleone na sexta-feira, quando todas as pizzas recebem borda recheada especial e o vinho sai pela metade do preço, mas logo a imaginou do outro lado da mesa com
uma ruína de cicatrizes e caretas permanentes onde havia um belo rosto. Será que ela ainda seria capaz de sorrir? Será que a pele do seu colo descolaria com aquele calor inclemente? O desmaio quase o venceu no último degrau.
Foi quando ela gemeu por socorro. Linguini quase não podia ver e nem respirar. Não tinha mais certeza que estava acordado. Os soldados caminharam com a mangueira e ele avançou tão rápido quanto um coxo poderia correr. Então parou. Ela estava deitada e encolhida no cantinho do corredor, onde a parede do quarto encontra a porta.
Usava apenas um sapato de salto agulha. Ele não a reconheceu e foi incapaz de dar sequer mais um passo. Tudo ficou preto.
Quando acordou, recebeu as boas e as más notícias. Foi uma vela que causou o incêndio. Quando o Alberto desceu para pegar mais vinho, a faxineira dos Linguini saiu da cama sorrindo pela sorte que tinha em ter as chaves da casa. Ela esbarrou no castiçal sem perceber, e os lençóis pegaram fogo. Precisou de mais tempo para fazer sua higiene do que o fogo para se alastrar, e a escada logo foi tomada pelas chamas. Quando o Alberto percebeu, foi para a cozinha pegar um balde de água. Não foi capaz de sair.
Sua esposa estava chegando do trabalho quando os bombeiros tiraram da sua casa duas vítimas de incêndio e uma vítima de desilusão.
Na sexta-feira eles comeram sushi.

 

*primeiro conto destinado ao petrolinhas.

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