Teu corpo é um objeto apenas porque eu olhei?

Eu fiquei um tempo pensando se o título tinha que dizer “um objeto”ou “meu objeto”. É só quando um homem presume posse que dá pra chamar de “meu objeto”, não é? É quando ele entra no caminho do abuso.

Tu és mulher e vais naquele restaurante bacana. Então o garçom te causa essa vontade de olhar insistentemente, por qualquer razão. Daí a sentir atração sexual é um estalo de dedos, mas tu não sabes bem o motivo e não se constrange em continuar olhando. Ele se torna um objeto por isso? Como tu lidas com a vontade? Será que tu vais mudar de atitude, de visual e de tom de voz pra que ele também repare em ti? O que tem de objetificação nesse processo?

Tem muita mulher que admite que gosta de umas olhadinhas, desde que sejam discretas. Elas também olham e não se sentem piores por isso. É possível admirar a beleza do ser humano sem que o outro seja um objeto? É possível amarrar essa admiração a impulsos sexuais sem que se fale em abuso e desrespeito?

Nós homens temos essa vontade de olhar quase todos os decotes, bundas, coxas, quadris e cinturas finas que estão no nosso campo de visão, e quem se pergunta o motivo, não sabe responder. A vontade simplesmente está lá, e ninguém se pergunta se aquele pedaço tem algum significado na sua vida. Se for apenas um agrado aos olhos, qual é o problema? Será mesmo que nós devemos nos negar esse agrado porque é o que diz o movimento contrário à sociedade machistapatriarcalopressora (porque, dizem, não dá pra separar uma coisa da outra) ?

Uma maneira de driblar o constrangimento é olhar mais pro rosto e apreciar o conjunto todo. Se um homem conseguir direcionar as suas fantasias para os olhos e para boca das mulheres, já é um grande avanço, mesmo que ainda possa ser um desvio. Porque no rosto nós vemos mais alma, mais essência, não é? Se o cara perceber que pode viver sem peitos e bundas na sua linha de visada, a mulher deixará de se sentir um objeto.

O problema só existe quando o corpo deixa de ser um colírio e começa a dar a ideia de posse. É quando um homem se garante o direito de falar, tocar e abusar. Tudo começou com aquele olhar fixo na presa, e vocês conseguem diferenciá-lo de uma olhadinha, certo? Reclamar na mesma hora, sem vergonha nenhuma e com firmeza, sempre pode deixar o cara constrangido e evitar o ataque.

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Por que nós olhamos para o seu corpo?

Nós fomos ensinados assim. É bem simples. Fazer diferente de tudo isso que vocês tanto reclamam é um exercício diário de concentração e disciplina, com o mesmo impacto de uma correção postural: nós até começamos motivados e lutamos contra o desconforto, mas em algum momento nos pegamos curvados. Puro costume. Aí nós lembramos do objetivo, e novamente dura menos do que deveria. Tentem fazer uma mudanças dessas na rotina mais fundamental de vocês, e entenderão que não é simples como passar uma tinta e dar um acabamento. E isso apenas para os que querem mudar, vejam só, que são minoria diante dos que olham porque não ligam e dos que nunca pensaram no assunto. Tem também aqueles caras raros que não olham, outliers inegáveis – eu não faço a menor ideia de que planeta vieram. A sedução de um corpo feminino ocupa o pensamento sem demora, e também as conversas e as atitudes dos homens em todo o seu crescimento de forma implacável. Começa antes que os meninos entendam qual é o mérito de um corpo curvilíneo e qual é a importância do sexo nas suas vidas. Eu só posso pedir que você continuem reclamando e que tenham um pouco de paciência, porque demora pra corrigir quem está disposto, e mais ainda para atingir quem não percebe. Certamente alguns homens já estão diferentes, graças a vocês. Quiçá seus filhos recebam uma educação mais moderna.