Quando as pessoas conversam

É muito bom viajar, não é? Eu curto desde a preparação até a volta. Tem aquele momento de chegar no avião e procurar o seu lugar pra sentar e perceber que todo mundo exagera na bagagem de mão, inclusive você. Ontem uma comissária me ajudou a encontrar um espacinho pro meu saxofone e me disse baixinho que pensou que eu fosse o Nando Reis quando me viu de relance. “Ai será que é ele? Eu adoro ele!” Eu quase respondi “por onde andei enquanto você me procurava”, mas apenas pedi desculpas pela decepção. Nós rimos juntos e eu fui pro meu assento.

É particularmente empolgante aquele momento em que o avião alinha na pista e fica um pouco suspenso, sem frear e nem acelerar, antes de subir a potência das turbinas até o máximo. O barulho é sensacional!

Eu passei o voo inteiro assistindo a um episódio de The Mentalist no laptop, e a senhorinha com mais de 70 não tirou os olhos da tela. Achei muito engraçadinho e fiquei aliviado por não ser uma série violenta e sexual. Mas eu não sabia que essa senhora já assistiu Game of Thrones, Breaking Bad, House of Cards, Vikings e etc, tudo pelo Netflix ou baixando torrents. Quando ela me contou que o marido fica vendo novela e Silvio Santos enquanto ela procura as séries no computador ou no smartphone, eu virei fã pra sempre. Adorei aquela meia hora de papo no final do voo!

Quiça ela tivesse me acompanhado no resto da viagem, um trajeto de ônibus que pode demorar até 3h com trânsito ruim. A senhora que sentou do meu lado, a dona Marli, adora conversar. É incrível como ela não fechou a matraca durante a viagem inteira, salvo um período em que eu ouvi duas músicas com o fone de ouvido. E essa dona Marli é tão ciumenta, que quando eu estava falando, chamou a palavra de volta e não largou mais. Eu logo aprendi que ela se recupera bem dos machucados – uma novidade pra quem já fez seus 60 anos – e que deus sempre a ouviu e ajudou. Eu sei dos filhos, das irmãs que morreram, do câncer da mãe, do emprego público e da sua revolta com o sistema carcerário. A dona Marli é muito esperta e muito bem informada, e critica muito a ansiedade da juventude, coisa que deve passar com a experiência. Bom, talvez ela mesma ainda seja muito jovem em alguns aspectos, mas eu respeito muito a sua história de trabalho e dor e superação. Eu só não entendo muito bem o porquê de me contar tudo isso.

Eu queria ter aquelas horas só pra mim. Música boa, estrada e introspecção era tudo o que eu precisava naquele momento. Tudo bem, fiz mais uma amizade-amostra-grátis, a segunda do dia, e não acho que tenha perdido alguma coisa. Mas, dona Marli, a minha primeira amiga da viagem era muito mais divertida.

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Anicca

Relativizar é um recurso muito util quando o seu dia de trabalho não passa. Você pode esquecer tudo o que te espera lá fora, para evitar comparações. Você pode fazer o mínimo de julgamentos negativos sobre as tarefas que precisa executar, e assim quem sabe parar de desejar tanto que te mandem trabalhar em home office. Você pode otimizar sua produtividade, coisa de gente super eficiente e que costuma fazer o tempo voar.

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Se mesmo assim você ficar contando os minutos pra sair, pode restar uma alternativa que de tão simples parece boba: desliga aí nessa mente brilhante aquele mecanismo que tenta controlar tudo, e apenas contemple o que está acontecendo, com total aceitação e sem carimbar como bom ou ruim. Não é coisa simples e nem boba – foi sarcasmo mesmo. É o tipo de insight e compreensão que muda tudo, mas não vem como receita de bolo na revista da banca.
Conseguir aplicar no máximo de situações possíveis na sua vida deve trazer paz e leveza pra botar no chinelo qualquer droga ou ansiolítico.

 

A propósito, tem dias em que ficar no trabalho é muito difícil bom, e então ir embora é o que se torna um problema. Não tem nada de errado em gostar de trabalhar e nem em desejar estar em outro lugar. O que precisa ser avaliado é se vale mesmo a pena sofrer por isso.

 

Reset na Política – II

Sim, eu realmente acho que alguns problemas do Brasil foram agravados pelo comportamento centralizador do Estado. E eu não vou analisar as relações do nosso passado e da nossa cultura com o quadro econômico e social, porque qualquer povo pode deixar de acreditar que é galinha e voltar a voar como uma águia em uma ou duas décadas de progresso. Aliás, essa palavra me incomoda, porque “progresso” não é apenas um avanço saudável em alguma área. Progresso também é uma palavra mágica e cheia de poder, que motivou dúzias de governos a caminhar na direção da pobreza e a amarrar demais a sociedade. Como um grupo de despreparados pensadores, mal escolhidos e absurdamente beneficiados pelos poder, tem o direito de traçar um caminho para o progresso de uma nação inteira, nos obrigando a caminhar cegamente nessa direção mal definida e impedir qualquer guinada para outra trilha, e no final não assumir qualquer responsabilidade? Vale tudo pelo progresso, desde que a fome seja do outro?

Eu acho que 2002 é uma boa data base. Naquele ano a economia não ia bem, especialmente porque o mundo tinha medo que se tornasse presidente do Brasil o maior sindicalista do mundo, o homem do calote ao FMI e do anti-capitalismo. Contudo, por mais incrível que pareça, Lula teve uma gestão exemplar. Ele nomeou uns caras conservadores e ortodoxos, com coragem suficiente pra travar expansionismo do PSDB – o FHC também chamava de “progresso”. O Brasil viveu uma austeridade sem precedentes, com juros altos, crédito muito controlado, rigor fiscal e cumprimento absoluto de contratos. O mundo estava feliz com a equipe econômica do PT, mas o povo sofreu bastante. O desemprego aumentou, a inadimplência aumentou, muitas empresas fecharam as portas e o consumo despencou. É disso que eu lembro quando alguém me fala do milagre econômico do Lula, das escolas e universidades que surgiram na sua gestão, dos avanços sociais e do combate ao desemprego. Não foi milagre, e sim receita de bolo. Só foi possível ajeitar a economia desse país glutão com rigidez e austeridade. O poder de compra do cidadão não aumentou por vontade divina, então a gente meio que já sacou como se faz pra melhorar a vida do povo. E não custa lembrar que o FHC foi muito elogiado por restaurar o poder de compra com o Plano Real e duramente criticado em 1999 com o câmbio flutuante e a consequente perda do poder de compra. E os anti-capitalistas que me perdoem, mas tudo se resume a poder de compra nesse mundo. Sem esse conceito, só se vive bem em um utópico arranjo comunista.
Para facilitar a vida do PT naquela gestão, os EUA passavam por uma crise profunda e a acelerada China precisava muito dos nossos commodities. Muita sorte e alguma competência evitaram que entre 2003 e 2009 o Brasil seguisse o caminho da Argentina de 1999, mas teria sido bem melhor se o Estado percebesse que não precisa ser gigante e onipresente.
Isso fica pra próxima.

 

Reset na política

Ah, como eu gostaria de saber conversar e escrever sobre política e economia! Não que mude alguma coisa, mas seria bom transmitir meus argumentos de forma clara o bastante pra não deixar dúvidas.
Nós fomos ensinados a pensar que o Estado é o nosso país e que nós temos que acatar todas as suas idiotices. Nos enfiaram goela abaixo a idéia de que a democracia presidencialista é o arranjo ideal e que o protesto e o voto podem mudar tudo. E pode parecer exagero, mas nos encheram de medo de qualquer mudança.
Eu quero menos Estado na minha vida. Quero que pais e mães decidam como educar seus filhos, que cada região tenha liberdade de planejar e dirigir seus esquemas e suas leis, que penitenciárias de participação público-privada sejam a maioria e que planos  de saúde sejam baratos e competitivos a ponto de levar saúde para toda a classe C. Quero que seja um costume verificar se os impostos não estão muito altos e baixar sempre um pouco mais, que não haja favorecimentos desta ou daquela mega-companhia e que lidar com empregos e empregados seja tão fácil que nenhum empresário sinta meda de fazer uma contratação ruim. E eu quero mais ainda, mas tá bom pra começar. O que me incomoda é que no Brasil isso só é possível com menos Estado, mas eu sou meio que taxado de maluco por pensar assim. E sou meio que taxado de cego por acreditar que tudo isso seria bom pra nós.

Felicidade

Não tem problema em ficar esperando o fim do expediente. Eu concordo que seja realmente muito bom deixar a rotina pra trás e curtir outras coisas boas da vida, mas que seja somente porque existe algo especial esperando. O que eu considero um problema é contar as horas para ir embora somente porque antes disso nada parece agradar. É coisa de quem está infeliz. Você não vai encontrar muita felicidade em uma pessoa ansiosa pelo fim de semana, com suas soluções mágicas para os seus problemas, né? A gente esquece de procurar uma fuga em algum ponto imaginário do futuro quando tem felicidade no presente, onde quer que estejamos. Estar feliz a ponto de não reclamar da segunda-feira, da reunião interminável ou do trânsito insuportável da capital é estar mais vivo. Por outro lado, ficar torcendo para as férias chegarem logo não é o mesmo que pedir pra viver menos? Eu não quero isso pra mim. Se puder escolher, prefiro os meus dias cheios do que der e vier.

PC – I

Faz tempo que eu não escrevo sobre sexo – acho que tive alguma vergonha. Acontece, né? Mas é um assunto que sofreu muitas mudanças na minha percepção e agora algumas idéias precisam virar texto.
Dá pra viver sem sexo?? É saudável viver sem sexo? E com sexo demais, como fica? Eu já tentei provar destes dois extremos e deu tudo certo, mas foram temporadas bem curtas. Por increça que parível, sexo a toda hora não foi uma maravilha, como às vezes a gente imagina que seja. Muito pouco sexo, por outro lado, pode ser bem complicado de aguentar, mas depende além da conta de como a gente encara essa situação. E essa coisa de experimentar pelo esporte não é o mesmo que assumir como postura de vida uma abstinência prolongada por anos, ou viver perseguindo mais e mais sexo descontroladamente. Não dá muito certo se não for uma motivação natural. Então parece que uma análise séria e coerente precisa considerar, no mínimo, as circunstâncias e o sentimento em cada situação.

E se a chave dessa discussão fosse ligar o foda-se pra quantidade de sexo, e focar somente em aprender algumas coisas novas e manter o máximo de bem estar? É quase como sacrificar a quantidade pela qualidade, mas não é a mesma coisa. Ligar o foda-se pode significar ter muito sexo, com muita frequência, ou ter quase nada, ou absolutamente nada, e ainda assim ficar satisfeito. O que eu acho mais importante é estar equilibrado, fazer o que achar melhor desde que aceite o que está acontecendo sem cobranças. Essa leveza deveria ser uma lei pra vida toda, mas me parece que ela é imprescindível no sexo. Eu entendo agora – há bem pouco tempo, na verdade – que fora desse equilíbrio as coisas não vão bem.

Recentemente eu recebi uma dica muito valiosa, que provavelmente se transformou em uma meta aqui nas minhas ideias e tem sido, de certa forma, um passatempo. Não é nada de muito especial, mas tem o poder de mudar tudo e parece ser livre de side effects.