Dance como quiser

“Dance como se ninguém estivesse olhando” é uma frase muito batida, mas vale a pena perder um minutinho a mais. Você já cantou no chuveiro como se ninguém pudesse ouvir? Já se permitiu ligar o foda-se para o mundo e fazer qualquer coisa que a sua irmã diria “como você é ridículo”? De verdade? Olha, é bem mais difícil do que parece. A gente acaba estabelecendo uma margem para a nossa loucura, que termina na faixa do proibido. Lá a gente nunca chega, ou chega e logo sai, porque a gente sabe que pode ser um tiro no pé. E é bom assim, porque eu já quis correr pelado na chuva e me sentiria ótimo na minha própria loucura se ninguém estivesse olhando, mas eu iria preso se alguém visse e ficasse ofendido. E é aí que está a origem de tudo: as pessoas têm opinião sobre tudo, e você não quer que elas opinem sobre como você dança. Eu não quero, por isso não danço. Mas será que eu opino sobre a dança dos outros? E será que não é um ótimo começo parar de opinar sobre qualquer coisa que não venha de mim mesmo?

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Do mesmo tipo que o seu.

Eu tenho medo de pular do alto do prédio ou da varanda ou da montanha quando olho pra baixo. Não é medo de cair, e sim de pular. De sentir uma vontade incontrolável de ver o que acontece, mesmo que a minha razão já conheça as consequências. Sabe aquela voz interior, aquele frio na espinha, aquele desgarramento da realidade que leva o mundo para outro lugar, e só sobra você e a queda livre? A sensação de poder e liberdade que só o medo consegue segurar? Sim, eu sinto medo, e ele é poderoso. Ainda bem.

Reflita

Olhe bem para você. Não se deixe enganar pelo que mostra. Esteja consciente o tempo todo da sua necessidade de aparentar alguma coisa, ou não verá nada. Você se torna invisível quando deseja mostrar que é belo, ou bom, ou calmo. Você esconde de si e de todos a sua essência quando acredita que alguém está olhando, e assim deixa de ser belo, bom, ou calmo. Você deixa de ser qualquer coisa, porque lá não há nada, além de uma camada de verniz – e você não é verniz. Você é essência, pura e natural, do tipo que tem medo e raiva e dor. Do tipo que não precisa se envergonhar de ser humano. E mesmo que a etiqueta deste baile exija o uso de máscaras sofisticadas, não se torne invisível para si. Você não precisa esconder-se de si mesmo, então pare com o teatro e se perceba inteiro. Eu garanto que é mais bonito do que aquela fantasia, mesmo que demore um pouco a se acostumar.

Está tudo bem.

Não tem problema se você está triste. Não está errado, e ninguém precisa entender. Você não precisa de ajuda, e tampouco precisa ajudar a conter as lágrimas de alguém. A tristeza cumpre um trabalho importante na sua mente desde muito antes das suas memórias mais antigas, e vai continuar esse trabalho pra sempre.

 

“Quanto mais profundamente a tristeza escava o vosso ser, mais alegria ele pode conter.”

Khalil Gibran

Será desconfortável, e você pode não se conter. Mas é o conforto que nos torna meio vivos e meio mortos, e é essa mania de ser represa o que nos leva à inundação de todo o resto.

Quando você for capaz de olhar bem dentro de si, lá onde esconde os seus demônios, e conseguir encará-los sem medo, vai perceber que eles não são seus inimigos. Vai perceber a beleza única de cada um, e vai reconhecer que eles são tudo o que você tem – inclusive toda essa tristeza que, de vez em quando, escala os muros que você criou e conversa te olhando de cima, como se fosse um gigante.

Me dê a pílula vermelha, por favor

Nós vivemos em uma cultura totalmente hipnotizada pela ilusão de tempo, na qual o chamado presente é sentido como uma pequena linha entre o ‘todo poderoso’ passado causativo e o ‘absurdamente importante futuro’. Não temos presente. Nossa consciência está quase completamente preocupada com memórias e expectativas. Nós não percebemos que nunca houve, há, ou haverá qualquer tipo de experiência além da experiência do momento. 
Portanto, nós estamos fora de contato com a realidade. Nós confundimos o mundo como ele é falado, descrito, e mensurado com o mundo do modo que ele na verdade é. Nós estamos doentes com uma fascinação pelo uso das ferramentas de nomes, números, símbolos, sinais, conceitos e ideias.

Alan Watts

Mentiras e o Direito de Escolha – II

Eu escrevi o texto abaixo há mais de 5 anos, mas recentemente mudei de ideia sobre o seu conteúdo a braçadas em uma água gélida e turva. Não é que eu goste das mentiras, mas hoje eu as aceito como humanas e naturais. É até benéfico nos sentirmos capazes de viver apenas para nós mesmos, ainda que seja somente em alguns poucos momentos da nossa fugaz existência. Ser capaz de fazer algo para si e de conservar alguma informação consigo é uma virtude de quem sabe que se entregar em excesso é tóxico como qualquer outro excesso. E eu não quero fazer apologias à mentira, porque, da mesma forma, não pretendo incentivar a verdade acima de tudo. Me sinto neutro sobre mentiras e verdades, e acho que cada caso precisa ser ponderado sem bias e sem um estatuto rígido e frio.

Me sentir pressionado a contar tudo o que acontece comigo me lembra de quando eu era um guri indeciso e inseguro, que precisava correr para a saia da mãe procurando aprovação em cada ato, porque era assim que tinha que ser, porque era essa minha educação, e ponto final. Também faz eu me sentir metade, e não inteiro, porque parte de mim sempre estará planamente comprometida a essa deformada moral vigente e nos enfiada guela abaixo, que dita o que é certo, o que é bom, o que é o amor e como devemos nos punir o tempo todo por coisa nenhuma.

Do outro lado desse rio, eu posso me sentir livre para tentar qualquer maluquice e não divulgar a ninguém se acertei ou se errei – ou qualquer conclusão possível e somente minha, já que certo e errado são conceitos que não se encaixam nesse raciocínio. Eu me dou esse direito, porque essa vida curta e implacavelmente imprevisível é só minha. E mesmo que eu ainda não me sinta capaz de ficar leve e em paz sem estar exposto ao mundo como o Sr. Moralmente Correto Acima de Qualquer Suspeita, acho que já comecei a aprender a ligar o foda-se e curtir a minha individualidade sem culpa.

Por fim, eu classifico algumas mentiras como extremamente maléficas – as demagogias e as manipulações intencionais em qualquer situação, por exemplo. As vejo como traços humanos e talvez absolutamente perdoáveis, mas jamais me tornarei um mentiroso desse tipo.

 

 

Mentiras e o Direito de Escolha

Eu passei por uma saia justa recentemente. Errei e sofri com as consequências, mas fui influenciado a dissimular para me esquivar delas. Eu sofri com isso. Sofro com cada mentira que conto, com cada erro que cometo. Mas o meu maior alívio foi saber que quem estava me julgando assistira de camarote a minha mentira. Não importa qual fosse o veredicto, os juízes do meu deslize teriam o direito de escolha sobre a minha absolvição ou condenação, posto que sabiam de tudo.

Assim deve ser quando passamos um amigo pra trás. Ele precisa escolher se continuará ou não confinando em quem o traiu. Mais importante ainda é a traição de um cônjuge, que está amarrado em uma relação que não pode ser obscura ou mentirosa.

Se for uma relação vazia,  então pouco importa revelar ou não a mentira. Caso contrário, é covardia e imaturidade persistir no erro.”

Morrendo

Você volta de férias e não se encontra muito bem no seu trabalho. Acho que é sempre assim, então deve ser normal. Alguma coisa fica faltando, como se parte de você ainda estivesse longe. E o tempo, sempre imprevisível, passa de maneira estranha. Surpreendentemente, faz apenas 7 horas que eu cheguei, e já sinto como se precisasse de férias.