O lado humanitário do 20 de Setembro

Quando passou o 20 de Setembro, dia de celebração de tradições e de festas lá no RS, eu lembrei que muito antes da Lei Áurea, um lider político dava uma lição de humanidade e respeito ao Império do Brasil. E quando me perguntam se eu sou separatista – só porque sou gaúcho – tudo o que consigo pensar é no ideal que movia os lideres daquela revolução. Sim, meu estado foi separatista, e eu gosto de pensar que eu não teria feito diferente. E tudo bem em me taxar de separatista e revolucionário. O que eu não entendo muito bem é chamar meu estado de racista.
 farroupilha
Se comparar com o sudeste e o nordeste, no sul havia poucos negros. Era um estado pobre e esquecido, e o pouco de agropecuária que resistia às muitas guerras contra as nações do Prata era confiscado sem pena pela Coroa e pelo Império. Não tinha muito espaço para o escravismo. Era um povo formado principalmente por índios e imigrantes europeus – a maioria vinda dos Açores, já acostumada com o trabalho do campo e desde sempre esquecida pela Coroa de Portugual.

Um povo pobre e em guerra pode se tornar mais humano, mas um senhor de escravos é sempre um senhor de escravos. É claro que havia abuso, é claro que havia racismo. Para piorar, a chegada dos imigrantes alemães e italianos, em 1824 e 1885, respectivamente, aumentou o contraste de cores e costumes. Mas é inegável que o cenário era claramente favorável à discriminação. Esse era o Brasil do século XIX, embora lá no RS não houvesse tantos luxos sustentados pelo escravismo como nos estados ricos da nação. Então me diz, será mesmo que o povo gaúcho era tão racista assim?

Todo mundo sabe que existe discriminação no mundo todo, e todo mundo sabe que abolir a escravatura foi um passo importantíssimo no caminho da igualdade. Mas em 1835 esse ideal inovador e humano surgiu da liderança gaúcha em um momento em que o Império intensificava suas torturas. É esse o significado que o 20 de Setembro tem pra mim, e é disso que eu falo quando me dizem que o povo gaúcho é racista. Confira:

Trecho da carta de Bento Gonçalves em resposta ao Regente do Império Brasileiro, que ordenara de 200 a 1000 açoites aos negros gaúchos, libertos e combatentes na Revolução Farroupilha:

“Art. Único – Desde o momento em que houver notícia certa de ter sido açoitado um homem de cor, a soldo da República pelas autoridades do Governo do Brasil, o General Comandante em Chefe do Exército, ou Comandante das diversas Divisões do mesmo, tirará à sua sorte aos Oficiais de qualquer grau que sejam das Tropas Imperiais nossos Prisioneiros e fará passar pelas armas aquele que a mesma sorte designar.”

“(…) O Presidente da República, para reivindicar os direitos inalienáveis da humanidade, não consentindo que o livre Rio-grandense de qualquer cor com que os acidentes da Natureza o tenha distinguido, sofra impune e não vingado o indigno, bárbaro e aviltante tratamento (…)”

(Sampaio, Fernando G.; Bento Gonçalves: mito e história (sobre o herói ladrão farroupilha); Porto Alegre, Martins Livreiro, Ed., 1984)
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Doutor, sofri uma distensão.

Eu andava fazendo o mesmo de sempre, com a mesma falta de desenvoltura que me acompanhou a vida toda. Sou desengonçado mesmo, mas quem poderia imaginar que eu me machucaria com tão pouco? Aconteceu e eu nem vi. Senti somente depois, quando a poeira baixou, quando já tinha até esquecido de todo aquele movimento. E é engraçado pensar nisso agora, porque essa distensão me fez perceber que sempre forcei demais.

Todo mundo sabe como é uma distensão. A gente tenta esticar demais alguma coisa que deveria ter ficado em uma posição confortável. No meu caso foi apenas a minha mente, e eu logo descobri que essa distensão tem potencial para causar sofrimentos profundos.

Eu saí do presente incontáveis vezes. Na verdade, acho que estive muito tempo me distendendo do que vivendo o presente. Eu me estiquei muito para o futuro, onde poderia ficar imaginando prazeres e sofrimentos de todos os tipos, ou ficar montando cenários e investigando que rumos a minha vida poderia tomar. Era corriqueiro e involuntário na maioria das vezes, como aquela preocupação que o cotidiano demanda, mas eu também fiz alguns esforços criativos. E eu sentia uma mistura de emoções. Era algo como me satisfazer com a compaixão que todos teriam da minha história de dificuldades, ou então ser admirado por ter sido brilhante, ou então provar um pouco do gostinho daquela vitória que eu nunca realizei. Viver lá no futuro era melhor do que viver o aqui e o agora, e acabou se tornando um vício.

Eu também me estiquei demais lá para o passado, vivendo algumas lembranças que ensaiavam emprestar um pouco da sua alegria original, ou então um pouco da sua tristeza e da sua mágoa– porque eu só gosto de estar triste e magoado quando não estou no presente. Mas são sensações e percepções que aconteceram naquela época, que já passou e por isso não existe mais. Qualquer emoção vinda dessa distensão pro passado pode causar sofrimento, principalmente se vier temperada com um “e se” ou um “eu devia”.

O melhor lugar para estarmos é o presente, e é sempre aqui e agora que a vida acontece. É claro que tudo aquilo que ficou lá atrás é muito importante e não precisa ser esquecido. Mas e se nós apenas o observarmos do exato lugar em que estamos agora, sem apego e julgamento? Nós somos capazes de não nos conectarmos com as histórias que passaram, e não precisamos delas para sermos quem somos hoje.

Pensar sobre o futuro  também é imprescindível, mas apenas para resolver as questões práticas da vida, sem sofrer distensões. A vida é muito curta e passa voando, então vamos parar de forçar demais? Vamos nos manter na posição mais confortável que existe – o aqui e agora?

Prazo de Validade

Você me liga, me escreve, me dá a mão e sorri pra mim. Você me conquista e me seduz. Você me conta da sua visão sobre o mundo e sobre a música, e me leva pra passear onde tem mais beleza do que se imagina. Você me mostra que é uma companheira completa na rua e na cama. Você me prende como se o seu abraço tivesse o formato exato do meu corpo. Você elogia a minha comida, me incentiva a não ter medo e divide seus planos comigo com toda a paixão de um casal de adolescentes. Tem como não se encantar?

Então você se cala,  se aborrece e se afasta. Me fala que não dá, que precisa de mais e que é preciso mudar. Me priva do conforto e do carinho e do amor, me força a engolir que não terei mais o meu abraço e que não há muito a ser feito. Você me convida a esperar e ver no que dá.

É assim que eu descubro que gostava demais do que você me fazia sentir, sem perceber quem você é de verdade. É assim que eu aprendo que sem ser agradado, mimado e adorado, eu não gosto mais de você. É assim que a verdade nua e crua de que eu não olhei o prazo de validade vem à tona, e é assim que tudo termina.

Um relacionamento pode começar bem e pode se desenvolver com sucesso, mas nunca vai dar certo se as pessoas estiverem cegas pela carência e ficarem eufóricas com os doces e os presentes. É preciso olhar na essência e descobrir logo do que gosta e do que não gosta. É preciso ter coragem de deixar os mimos de lado e se concentrar no caráter e na personalidade. É preciso conhecer as manias, os medos e as loucuras. Porque quando for interrompido o seu suprimento de unicórnios vomitando arco-íris e você entrar em abstinência da sua droga pesada, só vai aguentar a queda se souber que do outro lado está a pessoa que você conhece, admira, respeita e quer bem.

 

É banal, né?

Nem sempre. Quando é uma consequência natural de um envolvimento mais profundo, não é banal. Quando é uma atividade de recreação e prazer entre duas pessoas que respeitam a si mesmas e se respeitam mutuamente, também não é banal. Quando não é tido como um direito carimbado por quem tem credenciais tão sérias quanto um adesivo de caderno, pode não ter nada de banal. Mas quando o sexo paga a conta da lagosta, e quando a lagosta paga a conta do sexo, a banalização é evidente e fica tudo parecendo muito ridículo.

Se tem meia dúzia de pessoas na mesa, esse sexo banal com jeito de suruba jamais agradará todo mundo. E o lance todo de satisfazer o ego e aliviar certas tensões pode ser muito bom, mas só para uma parte sua. Sem que você perceba, aquela transa fácil propaga algumas distorções na sua mente e na de quem mais se envolver, e reafirma esse vício de sexualização extrema. E essa sexualização extrema de tudo banaliza uma relação que poderia ter muito mais sentido se você não precisasse pagar a conta.

Você já parou pra não pensar?

Eu queria ser capaz de silenciar todo esse ruído mental, que me distrai e me afasta da minha essência.

 

Eu gosto de imaginar que eu vivo dentro de uma bolha de sabão bastante reflexiva, mas que deixa passar alguma luz de fora. Quando eu olho em qualquer direção, eu vejo uma imagem misturada do mundo com o meu reflexo – e ele raramente tem a minha forma original. São projeções distorcidas pelo ego e pelas expectativas, sempre capazes de me iludir, sempre flertando com a minha eterna vontade de ser iludido. E tudo o que constitui essa sofisticada casca esférica é o meu pensamento.

Essa bolha me isola do mundo, porque eu não o sinto inteiro através de um filtro tão complexo. Essa bolha me isola de você, porque você também vive na sua sofisticada casa redonda.

Seguindo essa ideia maluca de como funciona o nosso pensamento, é simples concluir que todos nós estamos isolados uns dos outros. O que eu vejo de você é uma projeção de si na sua própria bolha, cuja imagem distante chega fraca e sem foco na minha bolha. Essa imagem somente será percebida por mim depois de ser filtrada e convoluída com tudo o que eu projeto na minha própria tela esférica de sabão e ilusões. Pra mim você praticamente não existe como essência, como ser único e pleno, embora eu goste de pensar que sim. E eu realmente gosto, não pense que é só da boca pra fora. Mas é essa vontade de tornar você real e próximo e inteiro que me afasta de quem você realmente é.

E eu? Bom, eu também praticamente não existo como essência enquanto estiver viciado em pensar.

Todo esse ruído mental me desconecta de mim mesmo, exceto quando paro de pensar – mas parece impossível controlar essa chave de liga e desliga. Felizmente, ela pode ser acionada automaticamente, como quando praticamos esportes absurdamente radicais, quando estamos no ápice do prazer sexual ou quando usamos certas drogas. E certamente há outros momentos inimagináveis em que paramos de pensar e nos sentimos incrivelmente bem – momentos extrememanete viciantes. Mas há meios mais sutis de conquistar toda essa paz mental, como a meditação. E há uma construção de hábitos mentais que nos acalmam a um ponto quase tão prazeroso quando o silêncio, e que nos colocam de frente para a vida cheios de energia, despidos de medos e culpas, com aquela aceitação gostosa de que só existe o presente – e não há nada melhor do que viver inteiro no presente.