Por um amor mais leve – I

É perfeitamente normal você se sentir vazio, incompleto e um pouco perdido na vida. É um sentimento comum, recheado de medos e incertezas, que pode te fazer procurar por consolo em distrações e prazeres – e não tem nada de errado nisso. Ficar feliz e motivado é essencial para continuar vivo e se manter saudável, e você tem a liberdade de seguir pelo caminho que quiser.

Se a dor apertar, você pode encontrar seus analgésicos em compras, bebidas e drogas, sexo casual ou até em relacionamentos amorosos. Você pode comer mais do que deve de vez em quando, pode praticar exaustivamente algum esporte e até viajar a cada feriadão. Vale tudo, não é? Mas pode acontecer de você se sentir bem somente por um tempo, enquanto o efeito da droga não passa. É assim na maioria dos casos. Depois você se sentirá novamente como antes, com todo o peso que carrega encurvando os seus ombros, e ainda se sentirá sozinho e desconectado do mundo. Então não vai demorar muito até usar novamente alguma bengala.

Qualquer um pode se sentir triste e angustiado com mais ou menos frequência, e às vezes sequer perceber que está desmotivado no trabalho, mal-humorado em casa e sem vontade de se cuidar, simplesmente porque sente falta de alguma coisa e não sabe o que é. Nessas horas é bom contar com alguma ajuda, não é?

Existem muitas drogas capazes de fazer você se sentir melhor, mas nenhuma supera o amor. Quando você encontra a pessoa amada, tudo fica mais leve e a vida faz mais sentido. Não seria ousado demais afirmar que você se transforma quando ama: aqueles medos todos parecem um drama do passado e envelhecer deixa de ser assustador; você fica em paz quando está só, porque sabe que ama e é amado, e que em breve estará com a sua companhia favorita; você se sente como uma parte de algo maior, e a sua confiança o faz trabalhar mais e melhor.

Mas como acontece com qualquer droga, o efeito passa e você volta a sofrer. E como qualquer viciado, você se pega correndo em busca de mais uma dose, sem nem se perguntar se pode. Você passa longe de se perguntar se realmente precisa – afinal, é só amor, e isso nunca se nega a quem se ama!

Mas a pessoa amada pode não ter o que você procura. Ela pode estar indisposta ou indisponível, e talvez por isso você fique sem o que procura. Nessas situações de emergência, em abstinência e dor, é natural se rebelar e exigir aquilo que pensa que é seu por direito, já que sempre esteve lá para você.

É assim que surgem os relacionamentos de altos e baixos, de amor e ódio, de tapas e beijos. É assim que você começa a controlar quem ama, e é assim que se dá o direito de julgar e condenar. E como se uma relação fosse responsável por satisfazer a sua busca por paz de espírito e completude, talvez você não tolere voltar a sofrer enquanto o seu amor não faz nada a respeito. Nada do que você exige, que fique claro.

Como pode uma coisa tão boa como o amor nos causar sofrimento?  Como foi que nós conseguimos transformar aquela cura para os nossos males em um problema ainda maior? Sim, ainda maior, porque nós voltamos a ter toda aquela velha dor, mas agora somada à desilusão de uma relação problemática.

É porque, no fundo, não é amor. Parece que é, mas não passa de uma dependência quase doentia de algo externo que tenha esse poder mágico de curar os nossos problemas existenciais – uma manifestação do ego e das suas armadilhas. E embora em alguns momentos você sinta uma conexão genuína e profunda com outra pessoa, o ego logo assume o controle e você volta aos velhos padrões de negatividades que só lhe fazem mal.

Todo esse amor romântico e viciante é uma satisfação das expectativas criadas em torno da vida a dois, que a sociedade pinta como um sucesso. Mas quando você o vive, não aceita outro ser humano como realmente é, e sequer presta atenção nele. Você se percebe sempre no meio de brigas ou recém saindo de alguma, e segue vivendo como se essa montanha russa de emoções fosse normal – afinal, nos ensinaram que brigar faz parte da vida e até faz bem para o casal. No fim do processo, você passa a tratar quem ama com indiferença, mas esconde frustrações e mágoas profundas. Se decidir e conseguir se separar, vai experimentar sozinho as suas dores e procurar analgésicos como antes. Se não conseguir, fará pouca diferença, porque ainda será dependente de alguma ajuda externa para se sentir bem.

Mas será mesmo que precisa ser assim? Será que não é possível transformar essa dualidade de amor e ódio em um sentimento mais puro, que nos faça acolher o outro completamente? Será que nós somos capazes de nos sentirmos bem sozinhos, e então vivenciarmos um amor que não exista somente para satisfazer o nosso ego?

Colírio de verdade

Você já se sentiu comovido e estarrecido diante de alguma beleza transcendental? Como quando olhou para um céu aberto cheio de estrelas em uma noite serena, longe da cidade e das luzes? Ou quando esteve em contato com aquela natureza única do campo ou da floresta, tão complexa e desafiadora, mas tão acolhedora e harmoniosa? Já presenciou um pôr-do-sol no mar, com as montanhas e as nuvens e as ondas, e se sentiu ligado a toda imensidão do mundo? Você já observou uma obra de arte tão inspiradora e completa em si mesma, que foi tomado por uma alegria involuntária e intensa e sorriu quase marejado? Você já se esqueceu de tudo quando presenciou as coisas corriqueiras da natureza, como uma flor, o sorriso de uma criança ou a ternura inocente de dois passarinhos brincando na água?

Existe essa beleza que toca profundamente o nosso coração, e ela tem uma essência própria tão forte, que nos arrasta de onde quer que estejamos em direção a ela, e todo o resto some e silencia. É incrível quando você a presencia e se conecta com tudo o que ela divide, porque com ela só existe espaço para a paz, a alegria e o amor. E tudo o que você precisa fazer é observar, sem a pressa da curiosidade e das expectativas, sem o peso do conhecimento e de qualquer preconceito ou julgamento, e se permitir sentir todo o bem que ela lhe faz.