Por um amor mais leve – II

Eu raramente preciso de acolhimento físico, mas um abraço tem esse poder mágico de levar para a mente o conforto que o corpo sente. É gostoso, não é? E de todos os contatos físicos que eu consigo imaginar, esse é o que mais me conecta com as pessoas. Ele alimenta o amor genuíno.

Já aquele amor pesado, cheio de apego e exigências e dramas, não sobrevive só com um abraço demorado, ou com uma troca carinhosa de palavras, ou então com um olhar cheio de ternura. Porque esse tipo de amor é muito caro: ele sempre deixa uma conta para você pagar, e gestos completamente desapegados são muito pouco para ele.

Esse vídeo diz tudo:

 

 

Obrigado, Elita, pela sugestão do vídeo.
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Apenas relaxe.

Você provavelmente já ouviu falar em força de atrito. Tudo bem que se você for um veterinário ou um profissional da comunicação, por exemplo, aprender a calcular a força de atrito não mudou a sua vida.

Mas nesse texto sério e filosófico, o atrito tem um papel fundamental. Eu sei que poderia ter procurado uma analogia em outro lugar do conhecimento – não precisava ser na física. Mas é do atrito que eu gosto mais, porque é ele quem gasta energia.

Calcular as componentes de um arranjo de forças pode ser muito divertido ou muito chato, depende de como você encara a física. Mas de modo conceitual é sempre muito simples. Existe uma massa, que naturalmente tem uma inércia. Isso significa apenas que ela gosta do seu estado atual e não quer ser perturbada. Existe também uma força que combate a inércia, e por isso altera a quantidade de movimento que a massa sente. De modo geral, é bem previsível que uma força aplicada a uma massa a tire do repouso, ou a faça mudar de velocidade, a menos que exista algum atrito.

Agora vem a parte divertida: você sabe que o atrito não quer que você saia do lugar, né? Ele não é palpável e você pode demorar em acreditar que ele existe, mas o seu efeito é devastador. Ele vai dissipar a energia que foi direcionada ao seu movimento. Ele vai transformar a força que faria você ir mais longe em calor – uma confusão bem grande nas suas partículas. Então me responda bem rápido: você quer este atrito todo? Você gosta dele?

Sempre que você não aceitar o presente como ele é, você estará desperdiçando energia. Porque não importa como você gostaria que a vida fosse. Ela não espera você polir tudo o que não estiver reluzente. Não dá tempo de lubrificar a superfície para que tudo flua melhor. As coisas acontecem a todo o momento sem perguntar se você quer que elas sejam como são, mas você insiste em resistir. Você cria uma desordem no seu contato com o mundo que dissipa energia – e a sua energia é limitada.

Mesmo que você precise trabalhar muito e quase não tenha tempo de cuidar da sua família, você não precisa se sentir como se estivesse em uma guerra. Mesmo que a sua mãe esteja muito doente e seja a pessoa mais difícil que você já conheceu, você pode estar em paz quando voltar pra casa. Mesmo que o pneu do seu carro tenha furado na Linha Amarela, você pode lidar com essa situação sem alterar o seu bom humor.

Você só precisa parar de resistir. Você só precisa deixar de ser o atrito que leva embora a sua energia. Você pode se permitir sentir a vida fluindo como ela é, sem tentar se segurar em nada. Você pode deixar que o presente seja o presente, sem tentar transformá-lo na sua fantasia. Só assim você poderá usar aquela energia que gasta com o atrito em um esforço para mudar a sua situação de vida, caso as coisas estejam ruins. E você pode até não se sentir sempre disposto e feliz, mas certamente estará em paz.

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Temos todo tempo do mundo?

Você já constatou que se relacionar exige dedicação? Já percebeu que não faz amigos se preferir passar os dias em casa com preguiça? Você não será lembrado se deu bolo em todos os chopes com a galera, mesmo que todo mundo goste de você. Até mesmo se esse gostar for meio tímido, você estará mais próximo de todo mundo quando tirar a bunda do sofá e dividir algumas histórias e risadas.

Se você está flertando com alguém bom de papo, com quem passa os melhores momentos do seu dia, você vai querer se comunicar. Estará no seu pensamento o tempo todo, e você dará um jeito de ao menos dar um oi, porque você tem vontade. Mas se no meio da sua rotina você não conseguir sequer mandar uma mensagem – um sinal de que vocês estão conectados, será que esse flerte sobrevive? Qualquer indício de vida em um relacionamento pode morrer por inanição se você não fizer a sua parte.

Você pode achar que a sua mãe não vai se importar se você não liga há duas semanas. Ou que o seu irmão não deixará de ser seu irmão caso vocês fiquem afastados. Mas não existe relação à prova de falta de alimento, e as coisas serão diferentes se um de vocês se ausentar. As coisas serão piores. Se for isso o que você deseja, então está no caminho certo. Mas se você se importa com as suas novas amizades e com aquelas relações mais antigas, você precisa manter contato.

Estar próximo de quem se gosta é uma condição humana. Reciprocidade também. Então quando o seu amigo se afastar e não responder às suas tentativas de contato, você pode sentir alguma coisa. Mesmo que seja uma característica dele, e que você goste de quem ele é sem ressalvas, você não pode alimentar essa conexão sozinho. Mesmo que no fundo você aceite silenciosamente que as coisas não sejam como deseja, não espere que no próximo encontro esteja tudo normal. Pode ter mudado muito, a ponto de não haver uma segunda chance, ou só um pouquinho – você esquece logo em seguida. Mas a conexão entre vocês não sairá ilesa.

Quando eu tenho vontade de manter contato, eu dou um jeito. Por pior que esteja a minha rotina, eu não deixarei de me comunicar. Eu posso continuar apagando cinco incêndios durante o dia e não vai rolar aquela escapada pra conversar. Mas quando eu parar pra fazer xixi ou tomar uma água, vou gastar 30 segundos pra dar oi, perguntar como estão as coisas e me desculpar pela ausência. Não tenho tempo para estar do seu lado sempre que quero, sinto muito. Mas salvo quando estiver sem rede ou sem bateria, não tenho desculpas para não entrar em contato.

Quando eu tenho vontade, não meço esforços para estar por perto. Mentira, eu meço sim: meu empenho é proporcional à minha vontade. Não consigo ir até o Japão para comemorar o seu aniversário, mas daria um jeito de compensar. Nada me faria mais feliz, porque manter essa conexão com você estaria no topo das minhas prioridades. Eu desmarcaria um futebol com a galera para te dar um abraço, simplesmente porque quero te dar um abraço e não pretendo jogar fora uma boa oportunidade. Poderia deixar o mercado para mais tarde ou para amanhã se você estivesse passando aqui no meu bairro e quisesse sentar e conversar. Mas também poderia não me importar com nada disso e só te encontrar quando fosse conveniente pra mim. Tudo depende da vontade.

E é aí que está a ferida. Fiquei sem tempo, foi mal. Na próxima eu dou um jeito. Surgiu um compromisso e eu já estava enlouquecendo com tanta coisa. Mimimi. Sério, eu entendo mesmo. As coisas não saíram como planejado? Ok, quem nunca passou por isso? Não conseguiu se organizar e as energias acabaram? Isso também faz parte da condição humana. Mas qualquer um percebe quando não foi pela falta de tempo, ou por causa da correria e o cansaço acumulado, e sim porque você não teve vontade.

E não tem problema quando você não estiver a fim. Ninguém carimbará um “reprovado” na sua ficha, e seria um absurdo dizer que é errado não estar no clima. Afinal, você é o que é, e isso não vai mudar só porque eu quero que você esteja mais próximo. Mas eu posso não gostar dessa condição – tenho essa liberdade. E o que farei com esse sentimento não tem nada a ver com a nossa amizade. Talvez eu não faça nada a respeito e aceite tudo, mesmo sem gostar. Talvez eu até espere pacientemente pelo dia em que nós estaremos próximos outra vez, porque o meu sentimento por você vai além das expectativas sociais. Mas os laços que existem entre você e o mundo são tecidos também com a sua vontade e a sua dedicação. Se eu construir sozinho a nossa amizade, não espere que se pareça com uma corda forte de escalada. Pode ser que seja só um algodão fino de costura.