Mas não foi somente a toalha jogada na cama.

Às vezes a gente só quer ser acolhido, curtir um filme no sofá e sentir o corpo relaxar na cama, porque a louça já está lavada, a roupa já foi estendida no varal e o chão não se transformou em um tapete de poeira e pelo de gato. Às vezes  só queremos a manteiga derretendo em um pão francês recém tirado do forno da padaria, com um café amargo e uma conversa doce para acompanhar, já que nós estamos tão conectados que o diálogo se tornou a nossa sobremesa favorita.  Às vezes não precisamos de mais nada além de um cafuné, um beijo e uma risada, ou então de uma noite de sexo com leveza e paixão.

É lindo quando a nossa paz e a nossa alegria custam tão pouco. Não fazemos sacrifícios e não temos perdas – nem sequer do tempo de falar essa palavra – porque só temos a ganhar com as pequenas coisas mais gostosas da vida.

Mas às vezes as mesmas desculpas de sempre garantem que a louça fique suja e que a toalha molhe o lençol da cama dia após dia.  Às vezes o diálogo sofre golpes de descaso e interrupções e qualquer assunto se parte em pedaços bem na nossa cara. Às vezes o nosso corpo não consegue relaxar na cama, porque desaprendemos a girar a maçaneta da porta, baixar o volume do celular e deixar as lâmpadas apagadas. Às vezes o sexo passa lá longe, abanando com um sorriso amarelo, dizendo que já tem compromisso em outro lugar mas quem sabe um dia volte. Às vezes precisamos do nosso café bem doce, porque a conversa se tornou amarga e os vestígios do pão de ontem ainda estão espalhados no chão.

Algumas coisas não mudam antes de nós mesmos mudarmos. Conversar muitas vezes sobre um mesmo problema não funciona, porque tem coisas que precisam de uma percepção que nunca vem de fora. Ou você entende de uma vez, ou eu desisto de explicar. Porque eu não quero te transformar só no que me agrada, mas não suporto que você ignore tudo aquilo que nos faz mal e que tomou conta do nosso ambiente e do nosso convívio.

 

Você não precisa me desculpar.

Eu magoei você. E mesmo que a mágoa seja sua e que talvez você tivesse escolha, eu sou o cara que te decepcionou. Talvez você pudesse ter passado ilesa por essa coisa toda de coração partido – nunca se sabe como as pessoas reagem, né? O ferimento do seu coração poderia desaparecer como as feridas do Deadpool. Mas a gente sabe que no fundo eu te machuquei, e que até mesmo o Deadpool pode ter seu coração partido.

Deve ter sido um mal entendido. Talvez as palavras tenham sido mal escolhidas – às vezes eu sou ótimo nisso. Talvez eu não fosse capaz de falar em Búlgaro ou Finlandês – ou qualquer idioma que o seu coração entenda e eu não. Mas pode ser que tenha ficado claro que eu não estava com você quando você mais queria, e essa desconexão é o suficiente para partir qualquer coração. Pode ser que as minhas atitudes tenham sido exatamente aquilo que mais te faria sofrer.

Esse seu coração lindo foi ferido por mim, e eu sinto muito.

Mas eu não vou pedir desculpas, e não é por orgulho. É porque tá errado. Seria como se você tivesse que entender os meus motivos e me acolher no meu erro – eu não posso e não vou te responsabilizar por isso. Por mais que você me ame, e por pior que eu me sinta, eu jamais te pressionaria a me perdoar. E eu sei que você é capaz de me perdoar, porque o seu coração é gigante. Mas você não precisa me entender e nem se contentar com tão pouco de mim. Você não precisa me desculpar. E se eu acabar pedindo desculpas, é só porque eu quero que você fique bem. Não se sinta obrigada a dizer que sim.

Mas eu sinto muito, de verdade, porque eu te amo. Eu só quero que você saiba o quanto eu me importo com os teus sentimentos. Eu lhe desejo apenas alegria e paz e amor – eu nunca quis que você sofresse.

Já ficou claro que eu não estava presente e consciente nos momentos mais importantes da nossa história, e que esse nosso roteiro não foi escrito só com amor, mesmo que o meu amor por você seja imenso. O nosso roteiro de comédia e amor também foi escrito com medo e todos os transtornos que ele produz. Teve frustrações, ansiedades e mágoas. Teve decisões ruins motivadas somente pelo ego. Teve um silêncio infantil quando nós precisávamos dizer como nos sentíamos, sem medo de sermos julgados.

Eu não vou pedir desculpas, porque você não precisa me perdoar só para que eu me sinta melhor. Você não precisa consolar quem te feriu. Você só precisa entender que aqui e agora existe espaço para infinito amor. Você só precisa perceber que está bem, que o passado morreu e que o futuro é incerto demais para tentar controlar qualquer coisa.

Eu não quero que você me desculpe, e sim que você esteja leve, em paz e transbordando de amor. Eu só quero que você sempre se sinta viva.

Cuddling

Eu quero dormir de conchinha com você, e morrer de calor 5 minutos depois de te abraçar. Eu quero ficar bem pertinho do seu pescoço, só pra treinar minha resistência quando o seu cabelo entrar no meu nariz. Eu quero que você deite a cabeça sobre o meu braço, só pra ver ele formigar, perder a sensibilidade, começar a doer e então apodrecer. Será especialmente gostoso tentar tirá-lo de perto de você e constatar que ele não se mexe mais. Eu quero colar o meu corpo no teu, todo ele, e então sentir dor e frustração quando ficar excitado e você colar ainda mais, pedindo com um sorriso pra eu simplesmente dormir. Eu quero colocar meu braço em torno da tua cintura e acomodar minha mão no teu seio, mas em instantes eu vou babar no seu cabelo e na sua nuca. Eu quero dormir como uma criança, só pra você reclamar depois que eu atrapalhei teu sono com a minha respiração pesada.

É isso mesmo, eu quero tudo, o pacote completo. Tem dores que a gente escolhe passar e nem sabe bem o porquê. As coisas da vida não precisam de selo de aprovado ou reprovado, e eu não quero taxar algo de bom ou de ruim só porque afetou o meu prazer. E mesmo que eu possa fazer esses julgamentos com bastante frequência, eu nunca farei sobre a própria vida: ela é sempre fantástica. Porque dormir de conchinha, sozinho, ou passar a noite em claro também é estar vivo.

Meus dedos são tortos.

Eu gostaria de estar vencendo a calvície. Não é nada de urgente, mas pensem no bom e velho Caçulinha num mano a mano contra o Oscar Schmidt. Essa é a situação do meu cabelo contra o passar dos anos. Ah, o tempo. Pensem no Alien e pensem no Predator. Eu quero ser o Predator. Você tá pensando em ir no google dar uma refrescada na memória, né? Ah, o tempo. Mas não precisa, saca essa imagem:

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O que tem cabelo comprido é o meu favorito. Óbvio, mas eu não quero ter cabelo comprido. Apenas quero ter cabelo. Os caras mais estilosos que eu já vi têm o dobro da minha idade e quatro vezes mais cabelo. Patrick Dempsey, por  exemplo. Esse fdp ainda por cima é um ótimo piloto de corrida. Eu quero ser o Patrick Dempsey. Ou o Simon Baker – o mentalista. Ele nunca mais será outra coisa. Mas ele vai morrer aos 100 com mais cabelo do que eu tinha aos 10.

Outra coisa que eu gostaria de ter é uma voz de barítono. Uma voz que faria o Smaug  procurar um fonoaudiólogo. A voz do Clive Owen misturada com a do Benedict Cumberbatch – o próprio Smaug – mas com toda a dinâmica  do Bobby Mcferrin. Eu sei, google outra vez. Não vou ajudar muito, mas sugiro ver esse vídeo do Predator Bobby.

Eu também teria orelhas mais discretas. As minhas de abanofaziam meus amigos se abaixarem quando eu passava por eles. Elas não são grandes, mas você as percebe antes de saber que sou eu quem se aproxima lá longe. Elas me deixam com uma aparência boba. É por isso que eu faço cara de ranzinza. Mentira, eu não faço cara de ranzinza.

Minha postura poderia ser mais retilínea. Não gosto de me sentir como um velho cujo pescoço alcança o horizonte e cujos ombros lembram uma lua minguante. Sou meio lambisgóio. Não gosto de não ter as escápulas mais unidas. Não gosto de ter dor nas costas. Nada disso é um problema, mas esse meu corpo de modelo fotográfico da sua propaganda favorita de cuecas tem essa preguiça perante a gravidade – não todo ele – e isso precisa de atenção.

Também poderia ter olhos maiores e sobrancelhas mais marcantes – são pequenos para o meu rosto; são claras e finas para os meus olhos. Mas tem alguma coisa de legal nisso: ninguém vai dizer que eu tenho taturanas na cara (além do bigode, mas meu bigode é bem legal), e não preciso me preocupar se as sobrancelhas decidirem darem as mãos.

Eu posso escrever uma enciclopédia com as coisas que eu poderia fazer diferente, ou com as coisas que eu mudaria nesse meu corpo de campeão de boxe categoria meio-pesados. Mas eu assinei um contrato com tudo isso, e não cumprir a minha parte aciona automaticamente uma cláusula trágica: eu vou sentir uma frustração gigante até voltar a seguir o que os termos assinados determinam. E se eu estou comprometido comigo mesmo, não existe mais espaço para me comprometer com o que eu gostaria de ser. Do contrário, eu teria que pagar o preço da rescisão, que pode ser tão caro quanto a minha vida.

Isso não significa que eu esteja impedido de me esforçar – aquele acordo não tem nada que me obrigue a deixar tudo como está. Eu posso malhar e me tornar, quem sabe, um deus grego. Eu posso operar as minhas orelhas e fazer yoga. Eu posso usar loções que impeçam meu cabelo de cortar relações comigo. Eu posso fazer aulas de canto e sessões de fonoaudiologia. Eu posso cuidar de tudo isso, e ao mesmo tempo aceitar tudo como está. Eu posso perceber a cada instante que eu sou perfeito agora, sem juízo de valores sobre nada, e mesmo assim projetar alguma mudança para amanhã. E eu posso estar sempre em paz, mesmo que essas mudanças nunca cheguem.

Nós somos ensinados a competir e a comparar. Nosso dia a dia é uma sucessão de desencontros com quem somos. Nossas relações nunca são verdadeiras, porque nós não nos aceitamos e não aceitamos quem interage conosco. Isso sempre nos leva ao medo e à frustração. Talvez nosso código genético tenha algo que nos remeta ao mundo selvagem dos alpha e dos beta, mas nós não somos mais selvagens.

É gratificante não se preocupar com nada e não sentir medo de estar aquém do esperado. Esse pode ser o maior desafio da humanidade, mas só assim nos tornaremos aptos a aceitar qualquer pessoa como é, e a sentir uma paz que sequer imaginamos. Seja você mesmo.

sto-being-sad

O melhor de todos.

Eu posso cozinhar massas e risotos muito bons, todos orgânicos e vegetarianos. Se os nossos amigos ou familiares quiserem, também posso fazer bifes excelentes, mesmo que eu nunca prove um pedaço. Eu posso deixar a cozinha limpa antes e depois de cozinhar, enquanto tiro o bolo do forno e sirvo com calda de frutas vermelhas.

Eu posso consertar quase tudo em casa, e provavelmente farei isso sem camisa, de calça jeans e todo suado. Eu posso consertar o vidro elétrico ou o freio do seu carro, ou apenas deixá-lo limpo e confortável. Eu posso ajudar você a separar as roupas e a estendê-las no varal quando estiverem prontas, e talvez eu cuide tão bem do banheiro e do quarto quanto você. Eu posso passar a sua roupa quando estivermos atrasados e você estiver se maquiando.

Eu posso fazer trilhas, escaladas e acampamentos.Eu posso caminhar com você até aquela praia deserta ou aquela cachoeira de que você tanto fala. Eu posso gostar de todos os seus amigos, mesmo aqueles que querem tirar a sua roupa, mas nunca daqueles que te fazem mal. Eu posso amar os seus familiares como se fossem os meus, mas eu nunca vou te fazer conviver com quem você não quer por perto.

Eu posso malhar, tomar suco verde e diminuir o açúcar para ficar em forma. Eu posso jogar menos videogame e ver mais séries e filmes com você. Eu posso te dar abraços sem fim, carinho como se ainda fosse um menino inocente e te ouvir durante horas sem cansar. Eu posso te enlouquecer na cama e até deixar você me matar de vez em quando. Eu posso te fazer rir todos os dias.

Eu posso estar sempre atento ao que você diz e ao que você sente, e nunca trair a sua confiança. Eu posso fazer você se sentir acolhida e aceita como é, e nunca deixar de ser um cara interessante, porque você nunca vai me conhecer. Eu posso te fazer massagem.

Eu posso ser o namorado perfeito, o marido ideal e o seu melhor amigo. Eu posso, mas eu não vou – isso seria um absurdo. Quando se gosta de alguém, basta ser você mesmo, e qualquer coisa além disso pode ser o suficiente para estragar. Tudo se torna o melhor que pode ser quando a pessoa ao seu lado é exatamente quem você deseja ao seu lado. A toalha molhada jogada na cama perde a importância quando você não busca pessoas perfeitas, e por isso eu posso ser apenas um namorado, um marido, um amigo. Nada além de um ser humano, como qualquer outro, desde que seja quem você escolheu para dividir alguns momentos. Ou todos os momentos.

Mas eu não posso ser somente aquilo que você quer sem estar inteiro, por mais que você goste de mim e eu de você. E eu não posso ser aquilo que você não quer e ainda assim ser seu namorado, por mais que eu insista e por mais que você acredite que eu possa mudar.

I am Jack’s Broken Heart

– Cara, você tá apaixonado pela Amanda?
– O quê?
– Responde logo!
– Já entendi o que você tá fazendo! Você quer conversar consigo mesmo e quer que eu seja sua personalidade alternativa. Vamos lá, eu …
– Não, Olavo, eu já sei que EU estou apaixonado pela Amanda. Eu quero saber se VOCÊ também está.
– Ohh já sei! Podemos ser como no Clube da Luta, quando o Tyler conversava com outro cara sem nome que o Edward Norton interpretou.
– Não, o Edward Norton era o Tyler o tempo todo. Foi o Brad Pitt que interpretou um cara sem nome.
– Tudo bem, mas eu sou o Brad Pitt.
– Nem pensar! Sou o mais bonito aqui, e briguei mais vezes que você.
– Não fui eu quem veio procurar uma personalidade alternativa para desabafar…
– Eu não vim procu.. Ah, não importa. A Amanda jamais se interessaria por um cara com esse seu nome paleolítico. Parece que seus pais nasceram no Brasil Império e fizeram você no aniversário de 100 anos de casamento.
– Cara, esse nome veio do meu pai, que morreu mês passado de Lupus.
– Sério? Mal aí, eu não quis, eu tava…
– Relaxa, meu pai se chama Pedro e tá vivo. Meu nome é Olavo porque minha mãe curte o poema das estrelas. E Francisco não é lá muito moderno, né? Você tem o quê, 70 anos?
– Seu filho da mãe…
– Porra, Chiquinho, ninguém morre de Lupus. Em 8 temporadas de House, isso sequer foi diagnosticado. E é Marla. O nome dela é Marla, você a ama, mas ela está apaixonada pelo Tyler.
– Ok, mas e você?
– Eu? Eu faço sabonetes de madrugada com gordura humana.
– Não cara. Eu quero saber se você está apaixonado por ela.
– Se o Tyler está apaixonado por ela? Acho que só você pode responder.
– Peraí, você está dizendo que ela está apaixonada por você?
– Search your feelings, you know it to be true.
– Porra Olavo, quer voltar pra realidade? Eu to falando sério aqui. Eu a amo e quero ter filhos com ela. Não saberia o que fazer se tivesse que competir com você, porque as minhas chances já são pequenas.
– May the Force be with you.
– Olavo..
– Podemos ter filhos juntos, nós três. Lembra que eu e você somos uma só pessoa?
– Eu vou quebrar a sua cara.
– HAHA agora você entrou no clima! Eu estou apaixonado pela Marla, mas acho que não quero ter filhos. Meu lance é passar a noite acordado com ela e testar todas as posições do canadiansexacts.org. Eu quero fazer ela parar de achar que está gorda de tanto morder aquela cinturinha linda. E eu quero amarrar ela na cama e …
– CHEGA, Olavo! Você não entende que eu to falando de sentimentos?
– Você ainda quer quebrar a minha cara?
– Quero. Não quero. Quero só um pouquinho. Tá, não quero mais.
– Pena, porque ia ser Legen….wait for it….dary! E você sabe que sim!
– Deus me ajude.
– Ela sabe que você a ama?
Amanda se aproxima com uma bebida:
– De quem você tá falando?
– Ahn, err.. da..
– ?
– Da Marla! Uma amiga. Ela é meio excêntrica, perdeu um parafuso. Dois parafusos. Tá, pode ser que ela não tenha nenhum. Mas é gente fina, você ia amar ela!
– E porque você tá aí sozinho, conversando com um copo? Quem perdeu os parafusos foi você!
Francisco olha desanimado para o seu copo de suco de Lichia e sussurra:
– I am Jack’s deflated happiness.