Meus dedos são tortos.

Eu gostaria de estar vencendo a calvície. Não é nada de urgente, mas pensem no bom e velho Caçulinha num mano a mano contra o Oscar Schmidt. Essa é a situação do meu cabelo contra o passar dos anos. Ah, o tempo. Pensem no Alien e pensem no Predator. Eu quero ser o Predator. Você tá pensando em ir no google dar uma refrescada na memória, né? Ah, o tempo. Mas não precisa, saca essa imagem:

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O que tem cabelo comprido é o meu favorito. Óbvio, mas eu não quero ter cabelo comprido. Apenas quero ter cabelo. Os caras mais estilosos que eu já vi têm o dobro da minha idade e quatro vezes mais cabelo. Patrick Dempsey, por  exemplo. Esse fdp ainda por cima é um ótimo piloto de corrida. Eu quero ser o Patrick Dempsey. Ou o Simon Baker – o mentalista. Ele nunca mais será outra coisa. Mas ele vai morrer aos 100 com mais cabelo do que eu tinha aos 10.

Outra coisa que eu gostaria de ter é uma voz de barítono. Uma voz que faria o Smaug  procurar um fonoaudiólogo. A voz do Clive Owen misturada com a do Benedict Cumberbatch – o próprio Smaug – mas com toda a dinâmica  do Bobby Mcferrin. Eu sei, google outra vez. Não vou ajudar muito, mas sugiro ver esse vídeo do Predator Bobby.

Eu também teria orelhas mais discretas. As minhas de abanofaziam meus amigos se abaixarem quando eu passava por eles. Elas não são grandes, mas você as percebe antes de saber que sou eu quem se aproxima lá longe. Elas me deixam com uma aparência boba. É por isso que eu faço cara de ranzinza. Mentira, eu não faço cara de ranzinza.

Minha postura poderia ser mais retilínea. Não gosto de me sentir como um velho cujo pescoço alcança o horizonte e cujos ombros lembram uma lua minguante. Sou meio lambisgóio. Não gosto de não ter as escápulas mais unidas. Não gosto de ter dor nas costas. Nada disso é um problema, mas esse meu corpo de modelo fotográfico da sua propaganda favorita de cuecas tem essa preguiça perante a gravidade – não todo ele – e isso precisa de atenção.

Também poderia ter olhos maiores e sobrancelhas mais marcantes – são pequenos para o meu rosto; são claras e finas para os meus olhos. Mas tem alguma coisa de legal nisso: ninguém vai dizer que eu tenho taturanas na cara (além do bigode, mas meu bigode é bem legal), e não preciso me preocupar se as sobrancelhas decidirem darem as mãos.

Eu posso escrever uma enciclopédia com as coisas que eu poderia fazer diferente, ou com as coisas que eu mudaria nesse meu corpo de campeão de boxe categoria meio-pesados. Mas eu assinei um contrato com tudo isso, e não cumprir a minha parte aciona automaticamente uma cláusula trágica: eu vou sentir uma frustração gigante até voltar a seguir o que os termos assinados determinam. E se eu estou comprometido comigo mesmo, não existe mais espaço para me comprometer com o que eu gostaria de ser. Do contrário, eu teria que pagar o preço da rescisão, que pode ser tão caro quanto a minha vida.

Isso não significa que eu esteja impedido de me esforçar – aquele acordo não tem nada que me obrigue a deixar tudo como está. Eu posso malhar e me tornar, quem sabe, um deus grego. Eu posso operar as minhas orelhas e fazer yoga. Eu posso usar loções que impeçam meu cabelo de cortar relações comigo. Eu posso fazer aulas de canto e sessões de fonoaudiologia. Eu posso cuidar de tudo isso, e ao mesmo tempo aceitar tudo como está. Eu posso perceber a cada instante que eu sou perfeito agora, sem juízo de valores sobre nada, e mesmo assim projetar alguma mudança para amanhã. E eu posso estar sempre em paz, mesmo que essas mudanças nunca cheguem.

Nós somos ensinados a competir e a comparar. Nosso dia a dia é uma sucessão de desencontros com quem somos. Nossas relações nunca são verdadeiras, porque nós não nos aceitamos e não aceitamos quem interage conosco. Isso sempre nos leva ao medo e à frustração. Talvez nosso código genético tenha algo que nos remeta ao mundo selvagem dos alpha e dos beta, mas nós não somos mais selvagens.

É gratificante não se preocupar com nada e não sentir medo de estar aquém do esperado. Esse pode ser o maior desafio da humanidade, mas só assim nos tornaremos aptos a aceitar qualquer pessoa como é, e a sentir uma paz que sequer imaginamos. Seja você mesmo.

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