A evolução de uma doença

O país sempre precisa de dinheiro, mais do que arrecada. Sempre. Ele não sabe, mas essa é a sua doença. É por isso que a sua casa da moeda imprime sem controle. Como qualquer nação soberana, esse país pode decidir quanto dinheiro deve circular. Então chega a hiperinflação, o desemprego e a miséria. O país morre.

O país ressurge com um plano infalível: ele e os bancos compartilham a geração de dinheiro sem lastro, por demanda, mas agora com dívidas e títulos. Mas então mais dívidas e mais títulos surgem para assegurar as anteriores, e assim segue. Uns poucos investidores se dão bem. Chegam a hiperinflação, o desemprego e a miséria. O país morre.

Um novo plano infalível é lançado: o mesmo de antes, mas agora com controle de preços e barreiras ainda mais duras a produtos estrangeiros. Afinal, a hiperinflação não é apenas a carestia explosiva de todos os produtos? Obviamente, os produtos somem do mercado, as pessoas passam fome, o desemprego explode e o país morre.

O país tem uma brilhante ideia: se o BC operar apenas com títulos que perdem valor se a inflação crescer, e sem acesso direto aos títulos do Tesouro Nacional, não haverá hiperinflação. Brilhante. Ficou claro para o país que um banco privado jamais deixaria a inflação e os juros crescerem muito, porque com estes cânceres ele morre. Bancos privados podem ser grandes aliados. Mas então o país se sente preso demais nesta dieta cruel, morrendo de vontade de comer um docinho, e coloca a culpa no mundo e também, veja que ironia, nos bancos privados. Cheio de maluquices na cabeça, o país encontra meios de dar uma escapada: controla o BC e o TN, opera freneticamente com mais títulos do que deveria e maquia sorrateiramente um bocado de contas. Muito antes de saciar sua fome de glutão, a inflação e o desemprego crescem, o país fica muito doente e muita gente desconfia que ele vá morrer.

A cura do país surge quando os médicos sugerem uma dieta bastante restritiva. Então o país se dá conta de que a solução, desde o começo, era gastar pouco. Com os ânimos renovados, o país entra na dieta e se desapega do controle do BC. O país já se sente melhor.

O país também se dá conta de que 70% dos empregos estão em pequenas e médias empresas, justamente as mais massacradas pelas restrições do mercado, pela tributação maluca e pela burocracia, mas também as que mais estão expostas à concorrência. Então o país decide facilitar as coisas e reforma tudo: tributação clara e direta, pouca burocracia e mais infraestrutura para distribuir a produção. A inflação e o desemprego diminuem, e como consequência, a saúde e a educação melhoram. Que surpresa. O país ainda não sabia que não precisava ser uma babá quase perfeita. Ele pode ser apenas um secretário.

O país de agora gasta pouco e ajuda todo mundo a ser feliz, cada um a sua maneira, e goza de excelente saúde. O país está curado.